sábado, 5 de novembro de 2016

DILAMA

Disponível em: https:<//pt.wikipedia.org/wiki/Rompimento_de_barragem_em_Mariana> Acesso em: 05 de nov. de 2016.
DILAMA

 “De tudo que existe nada mais será destruído pelas águas do dilúvio.
Nunca mais haverá dilúvio para devastar a Terra”.
Assim assegurou a Noé o Criador.
De tempos em tempos
De épocas em épocas
O tempo passou.
A promessa não foi quebrada
Mas eis que o tempo de um novo dilúvio chegou.
Dilúvio de lama
Que instaura o drama.
Diluvio da barragem que se rompe
Do mar de lama que violentamente se irrompe.
Revelando facetas de morte
Implícitas na economia a serviço do lucro.
Revelando a sordidez sistêmica de um caiado sepulcro.

Revelam-se os mistérios do progresso diluviante.
Que fizeram da vida?
Tornaram-na opaca e cinzenta
Imersa na lama do lucro abissal.
Vestígios de um jogo fatal.
Poder do progresso
Regresso do poder
Poder do regresso
Coletivo decesso.

Dissera o Criador:
“Sejam fecundos”
Fecundamos o quê?
Os embriões do lucro
O vírus do poder.
Fecundidade diluviante.
Ópio delirante.

Onde estará o ramo verde?
Trazido pela pomba opaca de lama
Revelando a desejada mensagem de esperança
Creditada pelo coração de quem não desespera porque ama.
Ama na luta e na perseverança quase absurda
Ama na fecundidade da vida fecunda.
Latente e manifesta no ressurgir pós-diluvial
Latente e manifesta na renovação colossal
No olhar esperançoso do guerreiro
No sorriso inocente da criança
Na fé que nos instiga a viver com perseverança
Na força que vem do Criador
Na organização coletiva de luta e ardor
Na insistência em amar mesmo na dor
Na solidariedade despertada entre irmãos.
No amor que deseja florescer em cada coração.
Na fé tornada fermento de transformação
Tornando melhor o mundo que nos circunda.
Fecundidade fecunda.



Cleiton Henrique Lopes
Mariana, 16 de setembro de 2016.

ADENDO
Ainda sensibilizado pela reflexão instigada pelo VI Fórum Social pela Vida (promovido pela Arquidiocese de Mariana), que teve como tema e lema, respectivamente, “Casa Comum, nossa responsabilidade” e “por uma Economia e por uma Política a serviço da Vida”; por ocasião do primeiro aniversário do crime contra a vida (em suas diversas formas de manifestação) ocorrido em Bento Rodrigues (Mariana, MG) no dia 05 de novembro de 2016; dado o caráter determinante e distintivo da fé e da economia enquanto elementos fulcrais do tipo de organização societária verificado em Mariana; reafirmando a primazia do valor da vida, bem como, a imperativa necessidade de que sejam asseguradas as devidas condições para que ela se realize dignamente no aqui-agora histórico; reivindicando que os “atingidos” tenham acesso garantido a tudo aquilo que, por direito, lhes é assegurado; publico o poema acima contido. Não se trata, em absoluto, de instrumentalizar a arte. A poesia considerada não pretende ser um fim em si mesma. O que é visado é muito mais a reflexão que os sujeitos históricos podem fazer a partir das condições atuais de sua existência e da consideração do conteúdo do que o próprio conteúdo nela contido.


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