segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Por que não matar o besouro?


BESOURO RINOCERONTE / Rhinoceros beetle. Disponível em: http://biologiavida-oficial.blogspot.com.br/2014/08/Megasoma-mars.html Acesso em: 20 fev. 2017. 



Você está em um lugar qualquer (em casa, na rua, etc). Repentinamente, depara-se com um besouro. E aí? Vai matá-lo ou deixá-lo viver? (Frequentemente percebo que nós humanos quando vemos um inseto “invadindo o ‘nosso’ ambiente ‘civilizado’” tendemos a, em um comportamento assim naturalizado, optarmos por exterminá-lo). Ocorre que nesta “chinelada” explicitamos nossa máxima ignorância (desconhecimento) em relação ao nosso passado histórico (“queimamos” várias Bibliotecas de Alexandria cotidianamente). Temos acesso a muita informação (vale dizer, a muitas informações disparatadas, fragmentadas), o que nos dá a falsa ilusão de que “sabemos tudo” e de que estamos na “era do conhecimento”. Com efeito, não se segue que desta enxurrada de informação extraímos as condições necessárias para melhor compreendermos os mistérios da existência (mistérios estes que são soterrados pela frieza do nosso saber tecnicocientífico que sabe com a ilusão de que domina o que conhece, mas que, na verdade, impregna o real de uma segunda natureza quase tão mítica quanto a outra).

Vamos lá!!! Matamos o besouro porque ele seria um invasor do nosso civilizado ambiente, uma espécie inferior à dos “homens sapiens!”, uma simples e pequena criatura, etc. Contudo não é bem isso que se verifica! Eles aventuram-se na existência terráquea a bem mais tempo do que nós. Os besouros, insetos da ordem dos coleópteros, teriam surgido na era Paleozoica (entre 570 a 290 milhões de anos atrás). Nós humanos (“homens sapiens!”), inscritos na ordem dos primatas, estima-se que existimos desde a era Cenozóica  (a 65 milhões de anos atrás). Devíamos referenciar a não-extinção destes insetos. A permanência de uma espécie nesta caldeirão terráqueo nos remonta a sobrevivência diante de predadores, da adaptação e/ou evolução diante da hostilidade do ambiente externo etc. Nós humanos chegamos bem depois e, entre progressos e regressos, padecemos diante do medo de contribuirmos na explosão deste caldeirão (por exemplo, pelos efeitos da poluição e da degradação ao nosso hábitat causadas por nosso modelo de desenvolvimento insustentável, pela ameaça da deflagração de outra guerra mundial que poderia colocar em eminência a possibilidade da extinção de nossa própria espécie pelos efeitos do uso das nossas últimas e ultramodernas criações bélicas).


Como ia dizendo, nesta “chinelada” diferida contra o besouro expressamos a força de nossa ignorância irrigada pelo frescor de uma enxurrada de informação. 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Poderes em jogo: vestígios de uma luta banal

Os episódios ocorridos no mês de janeiro deste ano no Norte e Nordeste do país (mais especificamente, as “rebeliões” que culminaram na morte de “presos” para o deleite de sensacionalista como o ex-secretário nacional de juventude que afirmou que "tinha era que matar mais", bem como aguçando a insensibilidade a problemas socioeconômicos enraizados na realidade brasileira típica de um tipo de público que para isso experimenta um processo de deFORMAÇÃO/desINFORMAÇÃO/), além de revelarem pontos falhos de nosso precário Sistema Prisional, evidenciam aspectos importantes presentes nas interfaces da complexa relação estabelecida entre formas de poder em jogo, sobretudo, no campo da nossa realidade social, política, econômica e cultural: o poder estatal e o poder do crime organizado. O poder estatal, ainda que se tenha alcançado determinadas conquistas nesse sentido, demonstra vestígios de precariedade e insuficiência no que se refere a criação de políticas públicas efetivas para a superação da atual situação socioeconômica do país, que propícia o aumento da violência, o desenvolvimento do crime organizado, a persistência do quadro de exclusão e desigualdade social, o agravamento das questões sociais de forma geral. O crime organizado se agiganta neste “buraco negro” deixado pelo poder estatal. É preciso enfatizar que esta luta entre estes poderes, - a princípio opostos, mas na verdade, complementares porquanto estão enraizados na mesma realidade histórica -, é encarnada por homens que a assumem, a prolongam, a eternizam, sem que isso fosse uma condição necessária de sobrevivência da espécie. Então, porque o fazem? O homem é um ser de poder (ele o deseja, aspira e fascina-se diante dele). E assim, situados numa realidade histórica e concreta, homens dos dois lados em jogo se “digladiam” enjaulados numa situação historicamente criada para haver disputa de poderes. Com efeito, são homens igualmente humanos e da mesma espécie lutando numa luta desigual. Esta luta terá fim quando nem um dos lados for alimentado pelas condições sóciohistóricas da nossa realidade, isto é, quando o poder não for usado para calar o fosso histórico que há entre eles. Caberia, portanto, pensar no uso instrumental do poder no objetivo específico da realização da liberdade, da igualdade e dos potenciais positivos da humanidade, por meio da criação de condições concretas que realizem tais intentos, até então, ideais. Muito já foi feito nesse sentido, contudo, concomitantemente com os avanços, permaneceu as raízes do problema (a corrupção, o paternalismo, o clientelismo, o assistencialismo, etc) no modo de se expandir as políticas governamentais nesse sentido desenvolvidas.  


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