quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Ideologia histórica e história ideológica: pressuposto para a compreensão do processo de educação/formação do homem


Disponível em: https://www.google.com.br Acesso em: 07 dez. 2017. Ideologia: a arte de condicionar visões de mundo (até que ponto você está consciente da que lhe condiciona?).
Recorrentemente, em uma visão típica do senso comum, associa-se ao termo “ideologia” apenas àquelas ideias, concepções e visões de mundo, refratárias à conservação da realidade imediatamente dada (ao status quo). Deste modo, restringe-se o campo semântico do termo a uma significação possível, qual seja, a de ser como que “algo” que possui uma propriedade ontológica de ser corrosivo e destrutivo à civilização. Com isso, quem (ou aquilo no caso de ser um objeto ou algo objetificado) é identificado como ideológico recebe toda sorte de aversão por parte de seus avaliadores, na medida em que toma-se, inquestionavelmente, como pejorativa e/ou maléfica a propriedade de ser ideológico e/ou ter ideologias.

Falta àqueles que se apressam em tomar partido por esta compreensão acrítica do termo uma pergunta simples, mas fundamental, antes da emissão de qualquer ajuizamento: “o que é ideologia?”
Não seria igualmente ideológica, isto é, fundada em ideologias, a visão de mundo amplamente aceita em uma determinada época, naturalizada e compartilhada pelos cidadãos de um dado período. Falta este tipo de indagação e estranhamento em relação à visão de mundo vigente na medida em que estamos mergulhados dentro dela, de modo a, dela, não nos diferenciarmos e, pelo contrário, nela nos imiscuirmos como uma de suas partes à medida que a ela somos integrados pelo e no processo de educação/formação que recebemos existencialmente. Vale ressaltar que esta visão de mundo desempenha um papel importante no jogo social, qual seja, constituir um horizonte de sentido comum de modo a assegurar a permanência, a conservação, do imediatamente dado (do status quo).

Falta ainda a quem quer que faça este tipo de associação a clareza, e a consciência, de que o mundo é a realidade da co-existência de ideologias (divergentes e/ou complementares). Com efeito, é a naturalização de determinada(s) ideologia(s) que assegura aos conviventes de uma dada época a solidez do mito a partir do qual erigem e fundamentam o imaginário, desde o qual, convertem o desespero e a angústia diante da realidade sempre fluída, efêmera, em devir, em pacificação e resignação diante da segurança de um sentido existencial, historicamente naturalizado.


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Esperança CIRCUNSTANCIALIZADA

Que a esperança não seja uma espécie de ópio, mas a força motriz a mobilizar ações humanas direcionadas à modificação das situações sócio-históricas concretas que geram (des)esperança.

Disponível em: http://www.doispensamentos.com.br/site/?p=61


Com efeito, se para o processo de educação/formação do homem se coloca como horizonte formar pérolas, então é preciso que ele não se feche às condições sócio-históricas desde as quais se situa; isso ocorre quando ele se mitifica no cultivo de uma esperança ilusória (que se aplica apenas dentro dos limites dos muros institucionais), isto é, fechada em si, idealística, que não dialoga com as realidade que lhe são adversas. Com efeito, assim como ocorre com a concha no processo de constituição da pérola, é necessário o ferimento, advindo do contato com as condições adversas (neste caso, contidas na realidade sócio-histórica), para que o processo ocorra conforme o esperado. 

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Mundos possíveis: estratégia de estranhamento e reconfiguração do “imediatamente dado”

Para onde estamos indo? 
Pensar na viabilidade da co-existência de mundos possíveis, por inspiração da proposta apresentada pelo realismo modal de David Lewis (1941-2001), oportuniza que seja descortinadas perspectivas desde as quais se vislumbre que a realidade histórica, na qual o existente se insere, é, no final das contas, a realidade do devir constante, isto é, sempre não-determinada, fluída e disforme por princípio. Oportuniza ainda que seja pensadas estratégias de estranhamento à realidade imediatamente dada, (a esta realidade sempre naturalizada historicamente de modo a tornar-se como que a única possível fora da qual tudo é um disparate, devaneio, utopia, projeto não-realizável). Oportuniza, pois, que se proponha o ato de desencantar os existentes particulares daquele encanto disseminado por aqueles que se beneficiam do estado de coisas vigente por extrair dele as condições de possibilidade para a perpetuação da sobrevivência de si às custas de outrem. Este desencantamento pressupõe que, à maneira de verdadeiras marteladas desencadeadas sobre ruínas de uma antiga construção enrijecida e petrificada com o tempo, se considere que uma coisa é o que “é” pelo que assim se tornou a partir das escolhas particulares e/ou dos projetos coletivos implantados de modo que, desta forma, deixou de ser opção dentre a multiplicidade de opções para se tornar o “único mundo possível” fora do qual nada mais pode ser. Este tipo de consideração torna-se como que propedêutica para a práxis transformadora em vista da instauração de outros mundos possíveis.

Esta proposta assusta àqueles que, pelo processo de educação/formação recebido diariamente no mundo da vida, tornam-se cidadãos encantados ao serem educados/formados unicamente para se adequarem, se ajustarem, se adaptarem irrefletida e cegamente, a este mundo possível vigente (este momento de contato com a realidade imediatamente dada, quando feito de forma crítica e refletida, é importante no processo de educação/formação, mas urge ser seguido por outro de estranhamento, inadequação e resistência a determinados aspectos desta mesma realidade sob pena de, em caso contrário, tornar-se meio de adestramento para formar indivíduos bem-acomodados ao imediatamente dado que, assim, se torna imutável. Esta noção do processo de educação/formação em dois tempos encontra-se presente no pensamento educacional de Theodor W. Adorno (1903-1969)). Os assustaria menos se tomassem consciência de quanta injustiça é praticada para que haja “justiça”; de quanta opressão existe para que haja “paz”; de quanta vida é não-vivida por alguns para que outros vivam-na plenamente; de quanta desumanidade que há naturalizada no processo de humanização do homem; do quanto que matam Deus até mesmo quando se propõe à louvá-lo nas religiões (disso a intolerância religiosa dá testemunho); do quanto se enforma a vida na riqueza de seu vir-a-ser nos padrões emulados por aqueles que detém o poderio financeiro (para que seja constituído um estado de coisas a partir do qual estes se mantenham na posição de comando no jogo social); enfim, se tomassem consciência da precariedade e da involução cristalizadas na inadmissão da existência de mundos possíveis para nós humanos que, conforme Carl Sagam (1934-1996), vivemos neste “pálido ponto azul”.

Estamos mesmo no melhor dos mundos possíveis?

Seria o mundo do ... nazi-fascismo, do stalinismo, de tragédias sócio-ambientais humanamente causadas como a ocorrida em Bento Rodrigues (Mariana – MG) no ano de 2015, da desigualdade social, da violência contra as minorias, da fome, da exploração da vida alheia em detrimento da acumulação de capital, da corrupção naturalizada na vida política (fenômeno entendido a partir da confusão entre as esferas do público e do privado, ou melhor, da apropriação do público em benefício do privado), etc. ... o melhor dos mundos possíveis?


Novamente: estamos mesmo no melhor dos mundos possíveis?
Economia do Espaço-Tempo. Estamos sendo bons economistas?


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Inhotim: ‘A Maravilhosa Fábrica de Aisthésis’

Figura 1: John Ahearn e Rigoberto Torres - Abre a Porta, tinta automotiva sobre fibra de vidro, 530 x 1500 X 20 cm, 2006. Foto: Eduardo Eckenfels. Disponível em: <http://www.inhotim.org.br/inhotim/arte-contemporanea/obras/abre-a-porta/>
Não venho por hora tratar do que senti diante de obras particulares visitando Inhotim enquanto ávido “consumidor” de “experiências estéticas”. Quero apenas pontuar duas questões: 1) o espaço reduzido disponibilizado para o trato de questões estéticas próprias à cidade de Brumadinho no Instituto Inhotim (nesta cidade fica situado o Instituto) e 2) problematizar a eficácia da experiência estética obtida nos limites de um recanto espaço-temporal definido para este fim na medida em que se considera que o contexto maior em que se dá o processo de educação/formação do homem lhe danifica o próprio aparato perceptivo do qual ele se serve para ter esta experiência.

Centenas de trabalhadores - proveniente de Brumadinho ou não -, ao venderem sua força de trabalho e graças ao emprego de seus impulsos vitais, tornam operante aquela ‘Fantástica fábrica de Aisthésis’. Com efeito, eles, juntamente com os habitantes de Brumadinho (MG), não são tomados propriamente como objeto de que se ocupa a produção artística ali alocada. Existem no universo inhotiano enquanto funcionários e/ou instrumentos que fazem girar a roda da arte e a roda da economia local. A exceção quanto a isso fica por conta da obra Abre a porta (2006) de John Ahearn e Rigoberto Torres (ambos residentes nos EUA). No geral quanta vontade submetida ao dever; quanta vida não-vivida; quanta rotina coisificante; quanta angústia na vida tecnocrática; quantas vivências quotidianas; quão grande riqueza cultural; quão grande melancolia no medo da violência; quantas doenças impregnadas no tecido sócio-histórico brumadense; quão grande afetação da cultural local pelas matrizes culturais “advindas de fora”; quanta história não-registrada pela ciência histórica; quanta magia existencial não-retratada; quanto sacrifício existencial despercebido; quantas metamorfoses não-percepcionadas; quanta lucidez e quanta loucura escorrendo pelos ralos da vida... quanto isso e quanto aquilo pertencente ao quotidiano daquela cidade que não é matizado no universo inhotiano. O universo de Inhotim e de Brumadinho se encontram quando o segundo se assemelha ao primeiro a partir de aspectos que são comuns à condição de humanidade dos concidadãos destes dois universos; mas no geral, salvo raras exceções (como a acima mencionada), o segundo não é tomado como problema tratável pelo primeiro.

Uma das marcas do processo civilizatório, progressiva e regressivamente constituído pelo homem ao longo da história, é a instituição de lugares (a demarcação de porções de espaço-tempo) para a vivência das experiências de que ele é capaz e que são determinantes na manutenção das condições desde as quais se efetiva constantemente este processo. Disso dão testemunho os jardins botânicos e os zoológicos criados para o contato com a natureza; os templos para o encontro com a transcendência; e os “museus da arte” dedicados à vivência de experiências estéticas. Considerando o último caso, e a arte contemporânea em geral, porquanto acentuam o papel desempenhado pela subjetividade individual nestas experiências, cabe a seguinte pergunta: em que medida tais experiências não são coisificadas? (isto porquanto a própria estrutura perceptiva a partir da qual elas se realizam estão danificadas pelo tipo processo de educação/formação experimentado pelo indivíduo no mundo da vida e, sobretudo, no mundo do trabalho, numa época em que, sobretudo devido ao modus operandi característico do modelo econômico predominante, o homem inteiro é instrumentalizado - em vista da produção de um estado de coisas que tornem possível a manutenção do funcionamento ininterrupto das engrenagens que tornam operante o sistema capitalista).

  


terça-feira, 12 de setembro de 2017

O que é crise mesmo?





Crise. cRise. crIse. CriSe. crisE. CRISE. Reverbera-se o termo “crise” nos mais distantes rincões da Terra; os meios de comunicação de massa alardeiam-no massificadamente; formadores de consciência mais confundem do que esclarecem acerca da cena de época e da compreensão do problema ao omitirem/negligenciarem o seu longínquo enraizamento (devido, sobretudo, a carência de uma profunda e acurada análise de conjuntura). Propaga-se o termo sem uma terminologia correspondente. Como se esta conceitualização, de certa forma sacrifical, expiasse os males gestados desde a organização social vigente. Como se esta conceitualização desse  conta de captar acuradamente os diversos espectros da caótica realidade sócio-histórica. Como se esta conceitualização estancasse a barbárie a aflorar das mais variadas formas, nos mais variados campos da vida humana: ético, moral, político, religioso, cultural, econômico, institucional... As condições sócio-históricas vigentes, o modo de produção e reprodução material da vigente, o modo de configuração e de organização do “todo social”, conduzem o homem não a uma “crise de momento”, como se fosse o acontecimento escatológico de hoje, mas a um momento permanente de crise gestada desde muito a partir das condições criadas pelo processo de desenvolvimento, concomitantemente progressivo e regressivo, da civilização humana.

Esta terminologização indiscriminada, na qual tudo se resume à "crise", serve muito mais para o encantamento da realidade do que para o seu desencantamento, isto é, serve muito mais para velar a realidade do modo como ela se manifesta superficialmente - "em crise" - do que para a realização do movimento compreensivo de ir até as causas mesmas dos sintomas superficialmente manifestos (ao desvelá-la, ao desencantá-la compreensivamente). 

Indivíduos que se arvoram desde a posição que ocupam no "jogo social" para bradar, contra tudo que se manisfesta enquanto sinal de precariedade na estruturação da realidade social, o famoso chavão "É A CRISE!" sem se atentarem para os elementos presentes no processo de precarização desta assemelham-se a seres primitivos que sobem em uma esplendorosa árvore para, de lá, lançar pedras à esmo.

O que é crise mesmo? O que causa a crise? O que leva ao processo de instauração de uma crise? Estamos em uma crise permanente que se agrava de tempos em tempos?

domingo, 20 de agosto de 2017

Forças Armadas do Estado (FAE) e Forças Armadas do Crime (FAC): quem fixou a fronteira?







Emite-se o decreto de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) atestando o esgotamento da capacidade efetiva de atuação das forças tradicionais de segurança pública na função que lhes cabe junto ao Estado. Desde muito Segurança Pública no Brasil é sinônimo de repressão ostensiva do Estado ao crime (organizado ou não). Reforça-se o CAMPO DE FORÇAs das FORÇAS ARMADAS EM CONFRONTO, quais sejam: 1) Forças Armadas do Estado (FAE) e 2) Forças Armadas do Crime (FAC).


Erige-se uma circunstancialidade favorável à deflagração do confronto entre ambas FORÇAS ARMADAS. O termo confronto com a clareza de significado que lhe é próprio contribui mais para o velamento da real situação em questão do que para seu desvelamento. Transmite a ideia de um tipo de encontro específico entre duas entidades completamente díspares. Com efeito, ambas as forças se gestam no mesmo fosso: as condições sócio-históricas brasileiras desde as quais produz-se um clima favorável à disseminação do crime. Onde é grande o que as separa é maior ainda o que as une. Por que estão em embate?

A partir deste fosso comum se constituem enquanto forças distintas. Posteriormente assumem papeis específicos a cada uma delas: uma prioritariamente no intuito de fazer valer a Lei e a Ordem; outra no esforço de fazer valer sua própria “Lei” e própria “Ordem” (a do Crime). Esta última força alimenta-se dos pontos obscuros da nossa realidade sócio-histórica brasileira constituindo-se enquanto “tábua de salvação” para aqueles(as) que não são integrados no jogo social da Lei e da Ordem passando com isso jogar seu próprio “jogo paralelo” como meio de prover e promover as condições de produção e reprodução material da vida.

Ambas as forças constituem-se desde um solo comum para depois se enfrentarem: uns atuando em favor das Forças Armadas do Estado (FAE); outros atuando em favor das Forças Armadas do Crime (FAC). Os soldados de ambas forças vestem “camisas” que não construíram/elaboraram; lutam em uma batalha que já estava travada antes mesmo deles nascerem (emprestam o esforço vital e até mesmo a própria vida para alimentá-la tal como se coloca mais material combustível no fogo aceso). Vidas humanas são ceifadas.

Forças Armadas do Estado e Forças Armadas do Crime (organizado ou não): Forças Humanas condensadas em polos antagônicos de poder – o poder do Estado e o poder do Crime (organizado ou não). Poderes em disputa!


Segurança publica. Estado de guerra permanente. Força Vital humana cooptada pelas Forças Armadas em choque (FAE e FAC). Até quando?!

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Criminalização cultural: Funk é “falsa cultura”?

Criminalização cultural pela Cultura. É possível falar em uma única Cultura? Disponível em: http://aranhaempredimentos.blogspot.com.br/2009/01/novo-empreedimento-em-ribeiro-preto.html Acesso em: 15 jun. 2017.

A Cultura se arvora para criminalizar “formas culturais periféricas” que se desenvolvem em seu interior – por “periféricas” entenda-se: que distam do núcleo cultural socialmente aceito como expressão cultural “legítima” de um povo. Com efeito, tais formas culturais específicas, em última análise, são indissociáveis do escopo cultural ao qual estão vinculadas. A tentativa deste partejamento forçado, no qual define-se o que é Cultura e o que é não-cultura, via de regra, é promovida por grupos específicos que, a partir do lugar e do papel que ocupam socialmente, saem em defesa da Cultura e contra as influências que a não-cultura pode exercer sobre a Cultura. Qual o critério último capaz de assegurar legitimidade e a não-arbitrariedade à distinção entre Cultura e “falsa cultura”? É possível tal distinção? Em que medida?


A colocação do Funk na zona nebulosa e obscura zona do que é criminoso, ilícito, socialmente inaceitável, etc., proposta pela chamada “sugestão nº 17 de 2017” enviada ao Senado Federal por iniciativa de um cidadão brasileiro que teve o apoio de pelo menos outros 21.983, expressa um quadro de intolerância à diversidade cultural – em um país extenso, desigual e palco da co-existência de diversas matrizes culturais as causas que levam a isto são compreensíveis, não aceitáveis e/ou toleráveis. A diversidade cultural constitui-se enquanto fruto das vivências de um povo situado em um determinado contexto-sócio histórico. Daí segue-se que tentativas de criminalização cultural devam ser colocadas sob suspeita de modo a serem dissecadas através de uma operação crítica.

O Funk, tomado enquanto expressão cultural de camadas específicas da sociedade, é um modo de dar voz aos membros circunscritos histórica, social e historicamente nestas camadas que, no final das contas, contribuem na constituição do todo cultural. Em outras palavras, constitui-se enquanto canal a partir do qual minorias das favelas brasileiras emanam musicalmente aspectos de suas vivências culturais em um espaço-tempo sócio-histórico. Ainda que, de certa forma, o Funk tenha sido cooptado nos últimos tempos pela “indústria cultural”, passando a vincular uma apologia ao imediatamente dado (status quo) abdicando de diagnosticar potenciais emancipatórios contidos na realidade social das periferias sócio-geográficas por meio da vinculação da crítica engajada à letra e no estilo musical (exemplo disso é o chamado “funk ostentação” que alude e enaltece o predomínio do Capital na regência da configuração do jogo social, por exemplo, através do incentivo ao consumismo e da incitação à verticalidade nas relações sociais.  Assim, ao encobrir a realidade social marginal, precária, desigual e excludente com o véu da ilusão do exercício do poder, sem conferir meios de real empoderamento do indivíduo-histórico pauperizado pelos processo sociais que ele experimenta concreta e objetivamente no cotidiano, o “funk ostentação” promove a permanência do que se encontra “imediatamente dado”).

Não se justifica criminalizar o Funk sob a alegação de que, entre outras coisas, ele incita ao uso e tráfico de drogas ilícitas, promove a amoralidade, faz apologia ao crime organizado, etc. sendo que disso não se seguirá modificações nas condições históricas que propiciam o uso e o tráfico de drogas ilícitas, a vivência do que se considera como amoralidade, a instauração e difusão do “poder paralelo” do crime organizado, etc. Trata-se de atacar o sintoma e não a causa da doença (neste caso não se firma a noção de doença pelo que o Funk enquanto expressão cultural revela ser um modo de difusão da vitalidade cultural de um povo e não como aspecto doentio deste). Taxar o Funk, e o que ele significa sócio-culturalmente, enquanto “falsa cultura”, implica na tentativa de desvinculá-lo do contexto cultural no qual ele está inserido e circunscrito. Implica na criminalização cultural.

domingo, 28 de maio de 2017

Análise do constante (Re)ordenamento do Regime Ficcional de Democracia no Brasil

Reordenamento interpretado a partir da colocação de tapumes na fachada danificada. 


Registro da manifestação da última quarta-feira, (dia 24-05-2017), a partir do regime de imagens vinculado por uma Emissora de TV: Manifestação em Brasília. Manifestantes violentos infiltrados. Depredação do patrimônio público. Colocação de tapumes nas fachadas danificadas.

O edifício tomado como patrimônio público neste caso evoca a imagem da “coisa pública”, da “res” “pública”, que, por sua vez, permite-nos associá-la, metaforicamente, com a “República brasileira”. Assim, também metaforicamente considerando o fato concreto do reparo da estrutura do patrimônio público danificado na manifestação, temos que a colocação de tapumes, de remendos, na fachada da coisa pública - danificada pela erupção das forças recalcadas após o rompimento das barreiras protetivas de garantia da Lei e da Ordem (representada pela polícia) - remete à adoção de medidas paliativas pelo Governo como meio de salvaguardar as condições de ordenamento do Estado (tais medidas reparam o estrago causado pela força colocada em ação e não das condições que a gerou e recalcou). Com efeito, o reordenamento reduz-se à colocação de remendos nas fraturas cravadas na fachada do tecido da coisa pública.

Cessa-se a erupção. Renova-se a governabilidade da situação, isto é, o ordenamento da situação pelas Forças competentes para isso. Permanece as condições de multiplicação da força, desde muito, reprimida. Que condições seriam essas: o regime de construção e de estruturação histórica deste “patrimônio público”, da coisa pública. Que estruturação seria essa: o modo corrupto de se fazer política (herdado desde o período colonial, perpassando o Império até a República) que acabou por ser institucionalizado historicamente; as influências do positivismo cego que prega a “ordem” e o “progresso” sem se atentar às condições que geram (des)ordem e regresso; os modus operante do regime político oligárquico (a formação de bancadas que defendem seus interesses específicos no poder legislativo, por exemplo) encarnados no regime ficcional da democracia representativa (que ainda deve ser um conceito constantemente trabalhado, à luz das condições que o impossibilita de funcionar efetivamente em nossa realidade, para que possa de fato funcionar); a precariedade da representatividade partidária etc.  

O movimento foi denominado “Ocupa Brasília”. Brasília representa a sede do poder nacional. Ocupá-la implica em pensar numa forma de participação na cena política brasileira. Nesse sentido, insisto, a instabilidade do cenário político-econômico atual tem valor positivo no processo de democratização, ainda em curso, pelo que, no contexto da arraigada cultura de não-participação direta nas decisões da vida política do país, cria-se condições para envolver os cidadãos na efervescência politica brasileira. É mais do que política dos corpos. Na medida em que se considera que o espaço da participação popular reduz-se à forma do voto bem como e ao direito do “protesto legítimo”, - e porquanto esta última forma tem perdido legitimidade diante do governo pelo que, na maioria das vezes, tem sido ignorada – constata-se que tais ocasiões, ao possibilitarem a experiência da nossa inexperiência democrática, são formativas e, desta forma, cruciais no desenvolvimento – no constante (re)ordenamento - de nossa democracia ficcional.

Ficção não é mentira. Implica na constituição de um ordenamento possível. A democracia no Brasil funciona em regime ficcional na medida em que, em nossa política, assimila-se a compreensão de democracia na constituição do modo de se organizar o cenário político, porém, não se trabalha o conceito na prática política. Há condições históricas que travam a sua realização total de modo que, desta forma, porquanto ele realiza-se, enquanto regime ficcional, ele (des)realiza-se.


Voltemos ao regime representativo midiático: Despertar da força reprimida. Depredação da “coisa” “pública”. Colocação de tapumes. Recrudescimento dos artifícios de manutenção da Lei e da Ordem. Permanência das condições de (des)ordem (de um regime de ordem diferenciado da Lei e da Ordem).  

sábado, 22 de abril de 2017

Jogo “Baleia Azul”: um Tempo Pascoal às avessas (50 dias “regressivos”).


O progresso revela sua faceta obscura de regresso quando, por exemplo, cria condições para a ‘efetivação da morte’ dos homens que o alimenta com seus esforços vitais.
Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-39512008000100005

No domingo passado o famigerado Faustão levantou, de forma cômica, um caso exemplar de um hipotético expectador que possivelmente estava “na noite de domingo, em casa, no sofá da sala, assistindo TV, tendo mais mil amigos nas redes sociais e, no entanto, sentindo-se solitário cuidando do animal de estimação [preparando-se para mais uma entediante semana no mundo racionalizado]”. O caso hipotético leva em conta ao menos dois aspectos relevantes para a análise da atualidade: o modo de vida que se leva no “mundo globalizado” (leia-se em máxima racionalização pelo desenvolvimento da tecnologia moderna e da burocracia) bem como a implicância das novas tecnologias nos relacionamentos interpessoais. Tem-se neste contexto, por exemplo, a redução de nossa capacidade de relacionamento interpessoal, (com o desenvolvimento tecnológico hoje em dia se comunica muito mais estando interconectado a ‘grande Matrix’ do que através dos encontros entre pares - mesmo quando há tais encontros, ladeando a mesa num momento que seria de convivência por exemplo, nota-se a primazia da ferramenta tecnológica), o aumento da ansiedade, da depressão, da produção social da loucura (de Ciro Marcondes Filho), da venda de fármacos que amenizem dores e mantenham dopados os seres que coexistem nesta “jaula de ferro” (de Max Weber), neste “admirável mundo novo” (de Aldous Huxley).

Este caótico cenário é povoado por um tipo de homem carente de um sentido possível que oriente a sua existência devido a derrocada das grandes narrativas que asseguravam tal sentido nos tempos passados [o discurso da redenção do pecado original provindo do cristianismo, da emancipação do homem provindo do movimento histórico-filosófico do esclarecimento/aufklärung moderno, do progresso insuperável a ser alcançado provindo do movimento positivista...] (tal discussão é levada a cabo pelo filósofo Lyotard, 1987).  Diante da falta de um discurso que dê sentido à existência deste homem fragmentado que vive em meio aos escombros desta “realização irrealizadora” da Modernidade a morte parece se mostrar como uma opção de sentido.

Nos noticiários muito se diz nessa direção: adolescentes e jovens deprimidos se associam em grupos que versam sobre o suicídio (a morte própria). O jogo se propõe a ser um caminho que se realiza até uma chegada trágica: a morte (seja do participante seja de alguém próximo do participante). São cinquenta dias caminhando com um sentido que para quem ainda se agarra em algum soará como fatal, qual seja, a morte. (Ainda sim, repito, caminhando em direção a um sentido). Para quem encontra-se no pavor da desesperança cotidiana no ritmo agoniante desta entediante “jaula de ferro” monótona e dessacralizada pelo tipo de racionalidade vigente que a tudo impregna, uma jornada letal de 50 dias com desafios extraordinários tornou-se uma opção de sentido possível. Nas redes sociais tem-se divulgado contatos com número de uma espécie de central de prevenção ao suicídio. Na verdade não é uma central de prevenção; é uma cental que se proposita a ser um serviço de adiamento, de intervenção, de obstacularização, ao suicídio. A prevenção se dará mediante a superação do atual cenário; do arrombamento desta “jaula de ferro” (que empobrece a humanidade de suas múltiplas capacidades pelo tipo de formação do homem que nela se tem: o homem eficiente tecnocientificamente e tolhido de suas capacidade de estabelecer “vivências do espírito[Geist]”).


No atual modelo de racionalidade e de organização social a barbárie não é inesperada. O evento em destaque é uma evidência de uma de suas múltiplas manifestações perante a civilização. Ainda que recalcada, reprimida, silenciada, contida, negada, ela está aí se desenvolvendo porquanto nutrida constantemente enquanto é cativada diariamente dentro da “jaula de ferro”.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

(De)formação do homem em tempos de Esvaziamento: o processo de formação dos ovos sem clara e sem gema


O tronco oco de uma centenária árvore experimentada pelo tempo. Um pomposo embrulho embrulhando um vazio presente. Um pacote de “biscoitos recheados” cujos biscoitos ali contidos não são mais recheados pelo que uma criança já comeu cuidadosamente apenas o recheio de chocolate de cada um dos pares. Ovos sem clara e sem gema. São formas de mencionar alegoricamente o homem formado na atualidade histórico-filosófica, isto é, do homem que vive após o desabrochar e o murchar do projeto emancipatório da modernidade mas que não hesita em viver uma realidade decorada e perfumada ainda que por artefatos artificiais. Falo de um mundo povoado por estruturas [humanas] interiormente “nadificadas”. Não porque estejam em absoluto vazias (tais estruturas são preenchidas por um conteúdo que está para o homem tal como o enchimento de pano está para a “boneca-de-pano”: trata-se de um conteúdo funcional introduzido por um estranho que serve enquanto ocupa o espaço vazio da estrutura). Assim, a estrutura [humana] está interiormente “nadificada” na medida em que é preenchida por uma massa artificial, vazia, oca, opaca, cinza, estranha, extrínseca, imaterial que “nadifica” o homem por pelo menos dois fatores: 1) seja pelo esgotamento de sentido do conteúdo que, ao longo da história, constitui o que resta de sua subjetividade (tornando-o impessoal pela assimilação da lógica de ordenamento do meio social no qual ele está inserido); 2) seja pelo que tal homem experimenta um processo de formação que, via sedimentação histórica do conteúdo esvaziado, o torna inapto à experiência do diferencialmente novo e, dessa forma, “nadificado” (um autômato; um tecnocrata eficaz na função que exerce; um sujeito dominado pelo domínio de um restrito saber especializado; um sujeito esvaziado de sua capacidade de pensar e sentir; um sujeito que age porque impelido a agir, mas que desconhece os reais moventes que o mobiliza; um sujeito esvaziado de sua capacidade de ter vivências ....). Este homem de que estamos tratando não reclama – e não comporta – juízos valorativos daqueles que o categorizam, fixamente, como “melhor” ou “pior” do que o de outros tempos. É o velho homem em “novas” circunstâncias! O tipo de configuração de seus estados mentais numa configuração modulada pela lógica que perpassa as relações sociais e econômicas vigentes distingue-o de um período histórico ao outro.

Os que são classificados como niilistas em nosso tempo e em nossa realidade brasileira experimentam tal esvaziamento. Não obstante sejam julgados inferiores aos iniciados nos valores morais herdados dos conquistadores europeus há que considerar dois fatores que deslegitima tal prática provinda de baluartes da cultura europeia assentados em nosso território: 1) tais homens são forjados no contexto da globalização/universalização dos princípios capitalistas (o velho Marx já diagnosticou outrora que as relações tidas neste tipo de sistema social-econômico-cultural-político-religioso não visa valores transcendente mais a imanência do lucro). Portanto, não são formados na têmpera dos valores últimos (ainda que estes sejam proclamados como propósitos a ser alcançados). Donde segue-se que a questão vai além de ser ou não niilista. 2) os valores transcendentais herdados da cultura europeia já nos chegaram corrompidos e viciados. Ora, nossos valores morais nos alcançaram a partir de nossos colonizadores/exploradores. Assim, ainda que nos inculcaram valores como a liberdade e a honestidade nos subjugaram culturalmente e foram desonestos ao roubarem o que era propriamente nosso (nossos elementos naturais preciosos e nossa cultura). Nos depositaram valores e praticaram contra-valores. Donde segue-se que nos sentimos, por um lado, desobrigados de segui-los e, por outro lado, órfãos de valores. A saída parece ser ressignificá-los dado que não se inventam valores e os nossos originais foram usurpados pelos conquistadores.

 OBS.: Este texto foi escrito depois da leitura do texto "O filósofo e seus ovos" de Luiz Orlandi)


domingo, 12 de março de 2017

Despertar do caos no Espírito Santo?

















A polícia em greve. O caos instaurado (ele sempre esteve ali). A desordem impera. A sociedade clamando por SEGURANÇA (na prática a presença coercitiva do Estado ordenando o nosso desordenado cenário/espaço sóciohistórico brasileiro) e por PAZ (assegurada pela força ostensiva da Lei e da arma). [Esta é a percepção de um indivíduo que acompanha o conflito enquanto telespectador]. Com efeito, aprofundando um pouco mais o mergulho na realidade retratada advém a pertinência de situar o conflito no contexto no qual ele se situa. O conflito de hoje se enreda desde longa data. São os galhos de uma árvore a muito enraizada (Presença determinante de um processo de colonização em nosso histórico. Herança colonial. Desigualdade social. Discriminação racial. Corrupção eleitoral. “Voto do cabresto”. Paternalismo. Assistencialismo.  ...). O caos, ali manifesto explicitamente, deixou o Brasil perplexo. Natural? Como, assim? Ele estava ali o tempo todo. O caso é que o “demônio” era controlado pelo contínuo sacrifício repressivo do Estado. Foi o sacrifício cessar e ele se manifestou! 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Por que não matar o besouro?


BESOURO RINOCERONTE / Rhinoceros beetle. Disponível em: http://biologiavida-oficial.blogspot.com.br/2014/08/Megasoma-mars.html Acesso em: 20 fev. 2017. 



Você está em um lugar qualquer (em casa, na rua, etc). Repentinamente, depara-se com um besouro. E aí? Vai matá-lo ou deixá-lo viver? (Frequentemente percebo que nós humanos quando vemos um inseto “invadindo o ‘nosso’ ambiente ‘civilizado’” tendemos a, em um comportamento assim naturalizado, optarmos por exterminá-lo). Ocorre que nesta “chinelada” explicitamos nossa máxima ignorância (desconhecimento) em relação ao nosso passado histórico (“queimamos” várias Bibliotecas de Alexandria cotidianamente). Temos acesso a muita informação (vale dizer, a muitas informações disparatadas, fragmentadas), o que nos dá a falsa ilusão de que “sabemos tudo” e de que estamos na “era do conhecimento”. Com efeito, não se segue que desta enxurrada de informação extraímos as condições necessárias para melhor compreendermos os mistérios da existência (mistérios estes que são soterrados pela frieza do nosso saber tecnicocientífico que sabe com a ilusão de que domina o que conhece, mas que, na verdade, impregna o real de uma segunda natureza quase tão mítica quanto a outra).

Vamos lá!!! Matamos o besouro porque ele seria um invasor do nosso civilizado ambiente, uma espécie inferior à dos “homens sapiens!”, uma simples e pequena criatura, etc. Contudo não é bem isso que se verifica! Eles aventuram-se na existência terráquea a bem mais tempo do que nós. Os besouros, insetos da ordem dos coleópteros, teriam surgido na era Paleozoica (entre 570 a 290 milhões de anos atrás). Nós humanos (“homens sapiens!”), inscritos na ordem dos primatas, estima-se que existimos desde a era Cenozóica  (a 65 milhões de anos atrás). Devíamos referenciar a não-extinção destes insetos. A permanência de uma espécie nesta caldeirão terráqueo nos remonta a sobrevivência diante de predadores, da adaptação e/ou evolução diante da hostilidade do ambiente externo etc. Nós humanos chegamos bem depois e, entre progressos e regressos, padecemos diante do medo de contribuirmos na explosão deste caldeirão (por exemplo, pelos efeitos da poluição e da degradação ao nosso hábitat causadas por nosso modelo de desenvolvimento insustentável, pela ameaça da deflagração de outra guerra mundial que poderia colocar em eminência a possibilidade da extinção de nossa própria espécie pelos efeitos do uso das nossas últimas e ultramodernas criações bélicas).


Como ia dizendo, nesta “chinelada” diferida contra o besouro expressamos a força de nossa ignorância irrigada pelo frescor de uma enxurrada de informação. 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Poderes em jogo: vestígios de uma luta banal

Os episódios ocorridos no mês de janeiro deste ano no Norte e Nordeste do país (mais especificamente, as “rebeliões” que culminaram na morte de “presos” para o deleite de sensacionalista como o ex-secretário nacional de juventude que afirmou que "tinha era que matar mais", bem como aguçando a insensibilidade a problemas socioeconômicos enraizados na realidade brasileira típica de um tipo de público que para isso experimenta um processo de deFORMAÇÃO/desINFORMAÇÃO/), além de revelarem pontos falhos de nosso precário Sistema Prisional, evidenciam aspectos importantes presentes nas interfaces da complexa relação estabelecida entre formas de poder em jogo, sobretudo, no campo da nossa realidade social, política, econômica e cultural: o poder estatal e o poder do crime organizado. O poder estatal, ainda que se tenha alcançado determinadas conquistas nesse sentido, demonstra vestígios de precariedade e insuficiência no que se refere a criação de políticas públicas efetivas para a superação da atual situação socioeconômica do país, que propícia o aumento da violência, o desenvolvimento do crime organizado, a persistência do quadro de exclusão e desigualdade social, o agravamento das questões sociais de forma geral. O crime organizado se agiganta neste “buraco negro” deixado pelo poder estatal. É preciso enfatizar que esta luta entre estes poderes, - a princípio opostos, mas na verdade, complementares porquanto estão enraizados na mesma realidade histórica -, é encarnada por homens que a assumem, a prolongam, a eternizam, sem que isso fosse uma condição necessária de sobrevivência da espécie. Então, porque o fazem? O homem é um ser de poder (ele o deseja, aspira e fascina-se diante dele). E assim, situados numa realidade histórica e concreta, homens dos dois lados em jogo se “digladiam” enjaulados numa situação historicamente criada para haver disputa de poderes. Com efeito, são homens igualmente humanos e da mesma espécie lutando numa luta desigual. Esta luta terá fim quando nem um dos lados for alimentado pelas condições sóciohistóricas da nossa realidade, isto é, quando o poder não for usado para calar o fosso histórico que há entre eles. Caberia, portanto, pensar no uso instrumental do poder no objetivo específico da realização da liberdade, da igualdade e dos potenciais positivos da humanidade, por meio da criação de condições concretas que realizem tais intentos, até então, ideais. Muito já foi feito nesse sentido, contudo, concomitantemente com os avanços, permaneceu as raízes do problema (a corrupção, o paternalismo, o clientelismo, o assistencialismo, etc) no modo de se expandir as políticas governamentais nesse sentido desenvolvidas.  


Disponível em: https:??www.bolgdacrissantos.com.br