sexta-feira, 16 de março de 2018

AUTOCONSERVAÇÃO INSTITUCIONAL


O elemento divergente, discordante, não-assimilável, tende a ser expelido pelo organismo. De um modo ou de outro, tende a ser eliminado, neutralizado, a fim de que muita coisa mude e, no final das contas, permaneça como sempre foi (permaneça o “status quo”, a realidade “imediatamente dada”). Isso faz parte da dinâmica de autoconservação das Instituições sociais, ou se preferir, do modo como nelas se lida com individualidades recalcitrantes. Esta realidade torna-se mais visível tanto quanto, para atingir esta finalidade, se assimila o jargão “custe o preço que custar”, sobretudo quando este preço é a vida humana.

Desta vez o elemento expelido deste grande organismo, que é o nosso tecido social, foi a vereadora Marielle Franco. Trata-se de uma execução um tanto quanto misteriosa.

A Intervenção Federal prossegue. Um fato social midiático, pautado por resquícios do pragmatismo (cada vez mais intenso nos diversos âmbitos da vida social, desde o século XIX-XX) – quiçá não seja com pretensões eleitoreiras. No caldo desta iniciativa, muita coisa muda:  institui-se um novo ministério – o Ministério da Segurança Pública -, a presença das Forças Armadas do Estado nas ruas do Rio torna-se mais intensa, etc. e no final das contas, permanece as condições sócio-históricas que propiciaram o desenvolvimento do “Estado Paralelo” – o Crime “Organizado”.

O “hoje” é fruto de um longo processo histórico (fato óbvio!). Superá-lo implica em colocar em curso um contra-processo, do qual se sucederá a efetivação da “nova realidade” pretendida (a partir do enfrentamento e, em alguma medida, da superação, das condições presentes que bloqueiam este “progresso”). Esta compreensão processual parece não se fazer presente nas medidas recentemente tomadas em vista de se assegurar a “ordem e o progresso” da “nossa pátria”. Pelo contrário, tais medidas tem se pautado em atos imediatistas, que redundam, no final das contas, na opção pela violência como forma de enfrentar a violência. Tais mudanças não se sucederão, magicamente, ao simples toque da vara de condão governamental (a repressão não é o melhor caminho!). Quando esta pretensão sumária de nivelamento está em questão, o terror está, mesmo que secretamente, instalado.