sábado, 22 de abril de 2017

Jogo “Baleia Azul”: um Tempo Pascoal às avessas (50 dias “regressivos”).


O progresso revela sua faceta obscura de regresso quando, por exemplo, cria condições para a ‘efetivação da morte’ dos homens que o alimenta com seus esforços vitais.
Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-39512008000100005

No domingo passado o famigerado Faustão levantou, de forma cômica, um caso exemplar de um hipotético expectador que possivelmente estava “na noite de domingo, em casa, no sofá da sala, assistindo TV, tendo mais mil amigos nas redes sociais e, no entanto, sentindo-se solitário cuidando do animal de estimação [preparando-se para mais uma entediante semana no mundo racionalizado]”. O caso hipotético leva em conta ao menos dois aspectos relevantes para a análise da atualidade: o modo de vida que se leva no “mundo globalizado” (leia-se em máxima racionalização pelo desenvolvimento da tecnologia moderna e da burocracia) bem como a implicância das novas tecnologias nos relacionamentos interpessoais. Tem-se neste contexto, por exemplo, a redução de nossa capacidade de relacionamento interpessoal, (com o desenvolvimento tecnológico hoje em dia se comunica muito mais estando interconectado a ‘grande Matrix’ do que através dos encontros entre pares - mesmo quando há tais encontros, ladeando a mesa num momento que seria de convivência por exemplo, nota-se a primazia da ferramenta tecnológica), o aumento da ansiedade, da depressão, da produção social da loucura (de Ciro Marcondes Filho), da venda de fármacos que amenizem dores e mantenham dopados os seres que coexistem nesta “jaula de ferro” (de Max Weber), neste “admirável mundo novo” (de Aldous Huxley).

Este caótico cenário é povoado por um tipo de homem carente de um sentido possível que oriente a sua existência devido a derrocada das grandes narrativas que asseguravam tal sentido nos tempos passados [o discurso da redenção do pecado original provindo do cristianismo, da emancipação do homem provindo do movimento histórico-filosófico do esclarecimento/aufklärung moderno, do progresso insuperável a ser alcançado provindo do movimento positivista...] (tal discussão é levada a cabo pelo filósofo Lyotard, 1987).  Diante da falta de um discurso que dê sentido à existência deste homem fragmentado que vive em meio aos escombros desta “realização irrealizadora” da Modernidade a morte parece se mostrar como uma opção de sentido.

Nos noticiários muito se diz nessa direção: adolescentes e jovens deprimidos se associam em grupos que versam sobre o suicídio (a morte própria). O jogo se propõe a ser um caminho que se realiza até uma chegada trágica: a morte (seja do participante seja de alguém próximo do participante). São cinquenta dias caminhando com um sentido que para quem ainda se agarra em algum soará como fatal, qual seja, a morte. (Ainda sim, repito, caminhando em direção a um sentido). Para quem encontra-se no pavor da desesperança cotidiana no ritmo agoniante desta entediante “jaula de ferro” monótona e dessacralizada pelo tipo de racionalidade vigente que a tudo impregna, uma jornada letal de 50 dias com desafios extraordinários tornou-se uma opção de sentido possível. Nas redes sociais tem-se divulgado contatos com número de uma espécie de central de prevenção ao suicídio. Na verdade não é uma central de prevenção; é uma cental que se proposita a ser um serviço de adiamento, de intervenção, de obstacularização, ao suicídio. A prevenção se dará mediante a superação do atual cenário; do arrombamento desta “jaula de ferro” (que empobrece a humanidade de suas múltiplas capacidades pelo tipo de formação do homem que nela se tem: o homem eficiente tecnocientificamente e tolhido de suas capacidade de estabelecer “vivências do espírito[Geist]”).


No atual modelo de racionalidade e de organização social a barbárie não é inesperada. O evento em destaque é uma evidência de uma de suas múltiplas manifestações perante a civilização. Ainda que recalcada, reprimida, silenciada, contida, negada, ela está aí se desenvolvendo porquanto nutrida constantemente enquanto é cativada diariamente dentro da “jaula de ferro”.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

(De)formação do homem em tempos de Esvaziamento: o processo de formação dos ovos sem clara e sem gema


O tronco oco de uma centenária árvore experimentada pelo tempo. Um pomposo embrulho embrulhando um vazio presente. Um pacote de “biscoitos recheados” cujos biscoitos ali contidos não são mais recheados pelo que uma criança já comeu cuidadosamente apenas o recheio de chocolate de cada um dos pares. Ovos sem clara e sem gema. São formas de mencionar alegoricamente o homem formado na atualidade histórico-filosófica, isto é, do homem que vive após o desabrochar e o murchar do projeto emancipatório da modernidade mas que não hesita em viver uma realidade decorada e perfumada ainda que por artefatos artificiais. Falo de um mundo povoado por estruturas [humanas] interiormente “nadificadas”. Não porque estejam em absoluto vazias (tais estruturas são preenchidas por um conteúdo que está para o homem tal como o enchimento de pano está para a “boneca-de-pano”: trata-se de um conteúdo funcional introduzido por um estranho que serve enquanto ocupa o espaço vazio da estrutura). Assim, a estrutura [humana] está interiormente “nadificada” na medida em que é preenchida por uma massa artificial, vazia, oca, opaca, cinza, estranha, extrínseca, imaterial que “nadifica” o homem por pelo menos dois fatores: 1) seja pelo esgotamento de sentido do conteúdo que, ao longo da história, constitui o que resta de sua subjetividade (tornando-o impessoal pela assimilação da lógica de ordenamento do meio social no qual ele está inserido); 2) seja pelo que tal homem experimenta um processo de formação que, via sedimentação histórica do conteúdo esvaziado, o torna inapto à experiência do diferencialmente novo e, dessa forma, “nadificado” (um autômato; um tecnocrata eficaz na função que exerce; um sujeito dominado pelo domínio de um restrito saber especializado; um sujeito esvaziado de sua capacidade de pensar e sentir; um sujeito que age porque impelido a agir, mas que desconhece os reais moventes que o mobiliza; um sujeito esvaziado de sua capacidade de ter vivências ....). Este homem de que estamos tratando não reclama – e não comporta – juízos valorativos daqueles que o categorizam, fixamente, como “melhor” ou “pior” do que o de outros tempos. É o velho homem em “novas” circunstâncias! O tipo de configuração de seus estados mentais numa configuração modulada pela lógica que perpassa as relações sociais e econômicas vigentes distingue-o de um período histórico ao outro.

Os que são classificados como niilistas em nosso tempo e em nossa realidade brasileira experimentam tal esvaziamento. Não obstante sejam julgados inferiores aos iniciados nos valores morais herdados dos conquistadores europeus há que considerar dois fatores que deslegitima tal prática provinda de baluartes da cultura europeia assentados em nosso território: 1) tais homens são forjados no contexto da globalização/universalização dos princípios capitalistas (o velho Marx já diagnosticou outrora que as relações tidas neste tipo de sistema social-econômico-cultural-político-religioso não visa valores transcendente mais a imanência do lucro). Portanto, não são formados na têmpera dos valores últimos (ainda que estes sejam proclamados como propósitos a ser alcançados). Donde segue-se que a questão vai além de ser ou não niilista. 2) os valores transcendentais herdados da cultura europeia já nos chegaram corrompidos e viciados. Ora, nossos valores morais nos alcançaram a partir de nossos colonizadores/exploradores. Assim, ainda que nos inculcaram valores como a liberdade e a honestidade nos subjugaram culturalmente e foram desonestos ao roubarem o que era propriamente nosso (nossos elementos naturais preciosos e nossa cultura). Nos depositaram valores e praticaram contra-valores. Donde segue-se que nos sentimos, por um lado, desobrigados de segui-los e, por outro lado, órfãos de valores. A saída parece ser ressignificá-los dado que não se inventam valores e os nossos originais foram usurpados pelos conquistadores.

 OBS.: Este texto foi escrito depois da leitura do texto "O filósofo e seus ovos" de Luiz Orlandi)