terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Ora, acaso as trilhas também não são caminhos?


A confusão entre ilegal e ilícito, assim como o entendimento de que tudo o que é ilícito é maléfico, contribuem para que se forje, e se consolide, a compreensão de que toda fuga do “caminho” é, somente, nociva ao caminhante e que, por isso, deve, a qualquer custo, ser puritanamente prevenida e, caso aconteça, punida com rigor (a consciência, o superego, tratam disso no plano individual).


Este tipo de entendimento se fundamenta na paranoia social-coletiva de que, sem o legalismo e o rigor excessivo da lei, sem o anestesiamento individual-e-coletivo, advindo do medo da punição, a sociedade, influenciada por certo de tipo de “permissivismo sem limites”, sairá dos trilhos (temor dos governantes da perca de governabilidade do sistema).

Com efeito, não se justifica defender esta mentalidade, de modo irrefletido e acrítico, quando o que está em jogo é a história de vida, a jornada existencial, de cada vivente humano. Em vista da realização plena do princípio de vida, na existência particular de cada um, sob o prisma holístico, estes [desvios] podem, e devem, ser amorosamente acolhidos, e não rejeitados e/ou reprimidos, à medida que contribuem para a evolução e aperfeiçoamento existencial de cada caminhante. Apreende-se, e aprende-se, preciosíssimas lições, também, com os erros. Para isso, é necessários aceitá-los – aceitar não significa conformar-se com o que está dado, aceita-se também para compreender e resistir – para que, deles, se possa extrair as mencionadas lições. Pesa neste ponto a noção de reconciliação. É mais proveitoso ao existente saborear a lição subtraída da experiência de desvio do que se auto-flagelar partindo do rasteiro e superficial moralismo [não se propõe e se incentiva aqui o desvio como modo de vida, o que seria apenas o contrário do estado de coisas vigentes, instiga-se a integrá-lo a experiência de vida].

Costumeiramente, coloca-se, compreensiva e didaticamente, os atos humanos nos recipiente do “certo” e do “errado” (para a consciência individual é mais cômodo esta simples tarefa do que refleti-los profundamente e, depois de muito fazer isso, extrair lições dos desvios em vista do desenvolvimento, quantitativo e qualitativo, do próprio processo de educação/formação – progresso e regresso caminham dialeticamente neste processo: o aparente progresso pode, no final das contas, levar ao regresso e o regresso, certamente, pode implicar, em alguma medida, no progresso de algum elemento/aspecto intrínseco ao mesmo sistema que o gera).

Extensivamente, se diz, pura e simplesmente, que há caminhos certos e errados. Porque não considerar que ambos são propícios aos caminhantes pelo fato de que, tanto um como o outro, fornece-lhes as experiências das quais ele necessita para o amadurecimento existencial (provavelmente, nesse ponto a consciência mais afeiçoada a este sistema de pensabilidade criticado atemoriza-se com o conteúdo aqui expresso e acusa este texto de ser relativista. Não se propõe novamente este relativismo, já a muito proposto. Não se propõe a extinção das balizas, fundamentos e parâmetros, mas que eles não sejam tomados como fins em si mesmos. Pressupõe-se que estão a serviço da vida, do existente particular, e não o contrário. Advoga-se, então, que este existente não se detenha nestes pontos fixos, mas assuma a dinamicidade do viver e avalie, a partir deles ou não, os atos concretos praticados e não se conforme àquela camada estereotipada de moralismo que sempre se manifesta como a primeira na avaliação de quaisquer atos. Ultrapassando-a, e outras mais, chegar-se-á até a possibilidade de avaliar o ato mesmo e, a partir dele, extrair lições necessárias).


Para o caminhante astuto e disponível à arte de lapidar-se ao longo da existência, as trilhas também são caminhos. Ainda que ele não negue a existência de uma “estrada principal”, ele não se furta ao enriquecimento possível às aventuras nas trilhas à medida que sente-se, sempre, inacabado e incompleto existencialmente.

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