A confusão entre ilegal
e ilícito, assim como o entendimento de que tudo o que é ilícito é maléfico,
contribuem para que se forje, e se consolide, a compreensão de que toda fuga do
“caminho” é, somente, nociva ao caminhante e que, por isso, deve, a qualquer
custo, ser puritanamente prevenida e, caso aconteça, punida com rigor (a
consciência, o superego, tratam disso no plano individual).
Este tipo de
entendimento se fundamenta na paranoia social-coletiva de que, sem o legalismo
e o rigor excessivo da lei, sem o anestesiamento individual-e-coletivo, advindo
do medo da punição, a sociedade, influenciada por certo de tipo de “permissivismo
sem limites”, sairá dos trilhos (temor dos governantes da perca de
governabilidade do sistema).
Com efeito, não se
justifica defender esta mentalidade, de modo irrefletido e acrítico, quando o
que está em jogo é a história de vida, a jornada existencial, de cada vivente
humano. Em vista da realização plena do princípio de vida, na existência
particular de cada um, sob o prisma holístico, estes [desvios] podem, e devem,
ser amorosamente acolhidos, e não rejeitados e/ou reprimidos, à medida que
contribuem para a evolução e aperfeiçoamento existencial de cada caminhante.
Apreende-se, e aprende-se, preciosíssimas lições, também, com os erros. Para
isso, é necessários aceitá-los – aceitar não significa conformar-se com o que
está dado, aceita-se também para compreender e resistir – para que, deles, se
possa extrair as mencionadas lições. Pesa neste ponto a noção de reconciliação.
É mais proveitoso ao existente saborear a lição subtraída da experiência de desvio
do que se auto-flagelar partindo do rasteiro e superficial moralismo [não se
propõe e se incentiva aqui o desvio como modo de vida, o que seria apenas o
contrário do estado de coisas vigentes, instiga-se a integrá-lo a experiência de
vida].
Costumeiramente,
coloca-se, compreensiva e didaticamente, os atos humanos nos recipiente do “certo”
e do “errado” (para a consciência individual é mais cômodo esta simples tarefa
do que refleti-los profundamente e, depois de muito fazer isso, extrair lições
dos desvios em vista do desenvolvimento, quantitativo e qualitativo, do próprio
processo de educação/formação – progresso e regresso caminham dialeticamente
neste processo: o aparente progresso pode, no final das contas, levar ao
regresso e o regresso, certamente, pode implicar, em alguma medida, no progresso
de algum elemento/aspecto intrínseco ao mesmo sistema que o gera).
Extensivamente, se diz,
pura e simplesmente, que há caminhos certos e errados. Porque não considerar
que ambos são propícios aos caminhantes pelo fato de que, tanto um como o
outro, fornece-lhes as experiências das quais ele necessita para o
amadurecimento existencial (provavelmente, nesse ponto a consciência mais afeiçoada
a este sistema de pensabilidade criticado atemoriza-se com o conteúdo aqui
expresso e acusa este texto de ser relativista. Não se propõe novamente este
relativismo, já a muito proposto. Não se propõe a extinção das balizas,
fundamentos e parâmetros, mas que eles não sejam tomados como fins em si
mesmos. Pressupõe-se que estão a serviço da vida, do existente particular, e
não o contrário. Advoga-se, então, que este existente não se detenha nestes
pontos fixos, mas assuma a dinamicidade do viver e avalie, a partir deles ou
não, os atos concretos praticados e não se conforme àquela camada estereotipada
de moralismo que sempre se manifesta como a primeira na avaliação de quaisquer
atos. Ultrapassando-a, e outras mais, chegar-se-á até a possibilidade de
avaliar o ato mesmo e, a partir dele, extrair lições necessárias).
Para o caminhante
astuto e disponível à arte de lapidar-se ao longo da existência, as trilhas
também são caminhos. Ainda que ele não negue a existência de uma “estrada
principal”, ele não se furta ao enriquecimento possível às aventuras nas
trilhas à medida que sente-se, sempre, inacabado e incompleto existencialmente.

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