O elemento divergente, discordante, não-assimilável, tende a
ser expelido pelo organismo. De um modo ou de outro, tende a ser eliminado,
neutralizado, a fim de que muita coisa mude e, no final das contas, permaneça
como sempre foi (permaneça o “status quo”,
a realidade “imediatamente dada”). Isso faz parte da dinâmica de
autoconservação das Instituições sociais, ou se preferir, do modo como nelas se
lida com individualidades recalcitrantes. Esta realidade torna-se mais visível
tanto quanto, para atingir esta finalidade, se assimila o jargão “custe o preço
que custar”, sobretudo quando este preço é a vida humana.
Desta vez o elemento expelido
deste grande organismo, que é o nosso tecido social, foi a vereadora Marielle
Franco. Trata-se de uma execução um tanto quanto misteriosa.
A Intervenção Federal prossegue. Um fato social midiático,
pautado por resquícios do pragmatismo (cada vez mais intenso nos diversos
âmbitos da vida social, desde o século XIX-XX) – quiçá não seja com pretensões
eleitoreiras. No caldo desta iniciativa, muita coisa muda: institui-se um novo ministério – o Ministério
da Segurança Pública -, a presença das Forças Armadas do Estado nas ruas do Rio
torna-se mais intensa, etc. e no
final das contas, permanece as condições sócio-históricas que propiciaram o
desenvolvimento do “Estado Paralelo” – o Crime “Organizado”.
O “hoje” é fruto de um longo processo histórico (fato óbvio!).
Superá-lo implica em colocar em curso um contra-processo,
do qual se sucederá a efetivação da “nova realidade” pretendida (a partir do
enfrentamento e, em alguma medida, da superação, das condições presentes que
bloqueiam este “progresso”). Esta compreensão processual parece não se fazer
presente nas medidas recentemente tomadas em vista de se assegurar a “ordem e o
progresso” da “nossa pátria”. Pelo contrário, tais medidas tem se pautado em atos
imediatistas, que redundam, no final das contas, na opção pela violência como
forma de enfrentar a violência. Tais mudanças não se sucederão, magicamente, ao
simples toque da vara de condão governamental (a repressão não é o melhor
caminho!). Quando esta pretensão sumária de nivelamento está em questão, o
terror está, mesmo que secretamente, instalado.

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