O progresso revela sua
faceta obscura de regresso quando, por exemplo, cria condições para a ‘efetivação
da morte’ dos homens que o alimenta com seus esforços vitais.
![]() |
| Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-39512008000100005 |
No domingo passado o
famigerado Faustão levantou, de forma cômica, um caso exemplar de um hipotético
expectador que possivelmente estava “na noite de domingo, em casa, no sofá da
sala, assistindo TV, tendo mais mil amigos nas redes sociais e, no entanto,
sentindo-se solitário cuidando do animal de estimação [preparando-se para mais
uma entediante semana no mundo racionalizado]”. O caso hipotético leva em conta
ao menos dois aspectos relevantes para a análise da atualidade: o modo de vida
que se leva no “mundo globalizado” (leia-se em máxima racionalização pelo desenvolvimento
da tecnologia moderna e da burocracia) bem como a implicância das novas tecnologias
nos relacionamentos interpessoais. Tem-se neste contexto, por exemplo, a
redução de nossa capacidade de relacionamento interpessoal, (com o
desenvolvimento tecnológico hoje em dia se comunica muito mais estando
interconectado a ‘grande Matrix’ do que através dos encontros entre pares -
mesmo quando há tais encontros, ladeando a mesa num momento que seria de convivência
por exemplo, nota-se a primazia da ferramenta tecnológica), o aumento da
ansiedade, da depressão, da produção
social da loucura (de Ciro Marcondes Filho), da venda de fármacos que
amenizem dores e mantenham dopados os seres que coexistem nesta “jaula de
ferro” (de Max Weber), neste “admirável mundo novo” (de Aldous Huxley).
Este caótico cenário é
povoado por um tipo de homem carente de um sentido possível que oriente a sua
existência devido a derrocada das grandes narrativas que asseguravam tal
sentido nos tempos passados [o discurso da redenção do pecado original provindo
do cristianismo, da emancipação do homem provindo do movimento
histórico-filosófico do esclarecimento/aufklärung moderno, do progresso insuperável
a ser alcançado provindo do movimento positivista...] (tal discussão é levada a
cabo pelo filósofo Lyotard, 1987). Diante
da falta de um discurso que dê sentido à existência deste homem fragmentado que
vive em meio aos escombros desta “realização irrealizadora” da Modernidade a
morte parece se mostrar como uma opção de sentido.
Nos noticiários muito
se diz nessa direção: adolescentes e jovens deprimidos se associam em grupos
que versam sobre o suicídio (a morte própria). O jogo se propõe a ser um
caminho que se realiza até uma chegada trágica: a morte (seja do participante
seja de alguém próximo do participante). São cinquenta dias caminhando com um
sentido que para quem ainda se agarra em algum soará como fatal, qual seja, a
morte. (Ainda sim, repito, caminhando em direção a um sentido). Para quem
encontra-se no pavor da desesperança cotidiana no ritmo agoniante desta
entediante “jaula de ferro” monótona e dessacralizada pelo tipo de
racionalidade vigente que a tudo impregna, uma jornada letal de 50 dias com
desafios extraordinários tornou-se uma opção de sentido possível. Nas redes sociais
tem-se divulgado contatos com número de uma espécie de central de prevenção ao
suicídio. Na verdade não é uma central de prevenção; é uma cental que se
proposita a ser um serviço de adiamento, de intervenção, de obstacularização, ao
suicídio. A prevenção se dará mediante a superação do atual cenário; do
arrombamento desta “jaula de ferro” (que empobrece a humanidade de suas
múltiplas capacidades pelo tipo de formação do homem que nela se tem: o homem
eficiente tecnocientificamente e tolhido de suas capacidade de estabelecer
“vivências do espírito[Geist]”).
No atual modelo de
racionalidade e de organização social a barbárie não é inesperada. O evento em
destaque é uma evidência de uma de suas múltiplas manifestações perante a
civilização. Ainda que recalcada, reprimida, silenciada, contida, negada, ela
está aí se desenvolvendo porquanto nutrida constantemente enquanto é cativada diariamente
dentro da “jaula de ferro”.

Nenhum comentário:
Postar um comentário