O
tronco oco de uma centenária árvore experimentada pelo tempo. Um pomposo
embrulho embrulhando um vazio presente. Um pacote de “biscoitos recheados”
cujos biscoitos ali contidos não são mais recheados pelo que uma criança já
comeu cuidadosamente apenas o recheio de chocolate de cada um dos pares. Ovos
sem clara e sem gema. São formas de mencionar alegoricamente o homem formado na
atualidade histórico-filosófica, isto é, do homem que vive após o desabrochar e
o murchar do projeto emancipatório da modernidade mas que não hesita em viver
uma realidade decorada e perfumada ainda que por artefatos artificiais. Falo de
um mundo povoado por estruturas [humanas] interiormente “nadificadas”. Não
porque estejam em absoluto vazias (tais estruturas são preenchidas por um
conteúdo que está para o homem tal como o enchimento de pano está para a
“boneca-de-pano”: trata-se de um conteúdo funcional introduzido por um estranho
que serve enquanto ocupa o espaço vazio da estrutura). Assim, a estrutura [humana]
está interiormente “nadificada” na medida em que é preenchida por uma massa
artificial, vazia, oca, opaca, cinza, estranha, extrínseca, imaterial que
“nadifica” o homem por pelo menos dois fatores: 1) seja pelo esgotamento de sentido
do conteúdo que, ao longo da história, constitui o que resta de sua
subjetividade (tornando-o impessoal pela assimilação da lógica de ordenamento
do meio social no qual ele está inserido); 2) seja pelo que tal homem
experimenta um processo de formação que, via sedimentação histórica do conteúdo
esvaziado, o torna inapto à experiência do diferencialmente novo e, dessa
forma, “nadificado” (um autômato; um tecnocrata eficaz na função que exerce; um
sujeito dominado pelo domínio de um restrito saber especializado; um sujeito
esvaziado de sua capacidade de pensar e sentir; um sujeito que age porque
impelido a agir, mas que desconhece os reais moventes que o mobiliza; um
sujeito esvaziado de sua capacidade de ter vivências ....). Este homem de que
estamos tratando não reclama – e não comporta – juízos valorativos daqueles que
o categorizam, fixamente, como “melhor” ou “pior” do que o de outros tempos. É
o velho homem em “novas” circunstâncias! O tipo de configuração de seus estados
mentais numa configuração modulada pela lógica que perpassa as relações sociais
e econômicas vigentes distingue-o de um período histórico ao outro.
Os
que são classificados como niilistas em nosso tempo e em nossa realidade
brasileira experimentam tal esvaziamento. Não obstante sejam julgados
inferiores aos iniciados nos valores morais herdados dos conquistadores
europeus há que considerar dois fatores que deslegitima tal prática provinda de
baluartes da cultura europeia assentados em nosso território: 1) tais homens
são forjados no contexto da globalização/universalização dos princípios
capitalistas (o velho Marx já diagnosticou outrora que as relações tidas neste
tipo de sistema social-econômico-cultural-político-religioso não visa valores
transcendente mais a imanência do lucro). Portanto, não são formados na têmpera
dos valores últimos (ainda que estes sejam proclamados como propósitos a ser
alcançados). Donde segue-se que a questão vai além de ser ou não niilista. 2)
os valores transcendentais herdados da cultura europeia já nos chegaram
corrompidos e viciados. Ora, nossos valores morais nos alcançaram a partir de
nossos colonizadores/exploradores. Assim, ainda que nos inculcaram valores como
a liberdade e a honestidade nos subjugaram culturalmente e foram desonestos ao
roubarem o que era propriamente nosso (nossos elementos naturais preciosos e
nossa cultura). Nos depositaram valores e praticaram contra-valores. Donde
segue-se que nos sentimos, por um lado, desobrigados de segui-los e, por outro
lado, órfãos de valores. A saída parece ser ressignificá-los dado que não se
inventam valores e os nossos originais foram usurpados pelos conquistadores.
OBS.: Este texto foi escrito depois da leitura do texto "O filósofo e seus ovos" de Luiz Orlandi)


Nenhum comentário:
Postar um comentário