quinta-feira, 20 de abril de 2017

(De)formação do homem em tempos de Esvaziamento: o processo de formação dos ovos sem clara e sem gema


O tronco oco de uma centenária árvore experimentada pelo tempo. Um pomposo embrulho embrulhando um vazio presente. Um pacote de “biscoitos recheados” cujos biscoitos ali contidos não são mais recheados pelo que uma criança já comeu cuidadosamente apenas o recheio de chocolate de cada um dos pares. Ovos sem clara e sem gema. São formas de mencionar alegoricamente o homem formado na atualidade histórico-filosófica, isto é, do homem que vive após o desabrochar e o murchar do projeto emancipatório da modernidade mas que não hesita em viver uma realidade decorada e perfumada ainda que por artefatos artificiais. Falo de um mundo povoado por estruturas [humanas] interiormente “nadificadas”. Não porque estejam em absoluto vazias (tais estruturas são preenchidas por um conteúdo que está para o homem tal como o enchimento de pano está para a “boneca-de-pano”: trata-se de um conteúdo funcional introduzido por um estranho que serve enquanto ocupa o espaço vazio da estrutura). Assim, a estrutura [humana] está interiormente “nadificada” na medida em que é preenchida por uma massa artificial, vazia, oca, opaca, cinza, estranha, extrínseca, imaterial que “nadifica” o homem por pelo menos dois fatores: 1) seja pelo esgotamento de sentido do conteúdo que, ao longo da história, constitui o que resta de sua subjetividade (tornando-o impessoal pela assimilação da lógica de ordenamento do meio social no qual ele está inserido); 2) seja pelo que tal homem experimenta um processo de formação que, via sedimentação histórica do conteúdo esvaziado, o torna inapto à experiência do diferencialmente novo e, dessa forma, “nadificado” (um autômato; um tecnocrata eficaz na função que exerce; um sujeito dominado pelo domínio de um restrito saber especializado; um sujeito esvaziado de sua capacidade de pensar e sentir; um sujeito que age porque impelido a agir, mas que desconhece os reais moventes que o mobiliza; um sujeito esvaziado de sua capacidade de ter vivências ....). Este homem de que estamos tratando não reclama – e não comporta – juízos valorativos daqueles que o categorizam, fixamente, como “melhor” ou “pior” do que o de outros tempos. É o velho homem em “novas” circunstâncias! O tipo de configuração de seus estados mentais numa configuração modulada pela lógica que perpassa as relações sociais e econômicas vigentes distingue-o de um período histórico ao outro.

Os que são classificados como niilistas em nosso tempo e em nossa realidade brasileira experimentam tal esvaziamento. Não obstante sejam julgados inferiores aos iniciados nos valores morais herdados dos conquistadores europeus há que considerar dois fatores que deslegitima tal prática provinda de baluartes da cultura europeia assentados em nosso território: 1) tais homens são forjados no contexto da globalização/universalização dos princípios capitalistas (o velho Marx já diagnosticou outrora que as relações tidas neste tipo de sistema social-econômico-cultural-político-religioso não visa valores transcendente mais a imanência do lucro). Portanto, não são formados na têmpera dos valores últimos (ainda que estes sejam proclamados como propósitos a ser alcançados). Donde segue-se que a questão vai além de ser ou não niilista. 2) os valores transcendentais herdados da cultura europeia já nos chegaram corrompidos e viciados. Ora, nossos valores morais nos alcançaram a partir de nossos colonizadores/exploradores. Assim, ainda que nos inculcaram valores como a liberdade e a honestidade nos subjugaram culturalmente e foram desonestos ao roubarem o que era propriamente nosso (nossos elementos naturais preciosos e nossa cultura). Nos depositaram valores e praticaram contra-valores. Donde segue-se que nos sentimos, por um lado, desobrigados de segui-los e, por outro lado, órfãos de valores. A saída parece ser ressignificá-los dado que não se inventam valores e os nossos originais foram usurpados pelos conquistadores.

 OBS.: Este texto foi escrito depois da leitura do texto "O filósofo e seus ovos" de Luiz Orlandi)


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