terça-feira, 12 de junho de 2018

Tic-Tac sagrado

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Tic-Tac sagrado

Tempo passou.
Relógio marcou.
Bateria acabou.
Relógio parou.
E o tempo?
O tempo continuou!
Indiferente à morte súbita do fiel marcador.
Também prossigo como fiel viajor.



No dia oportuno,
Sem que seja infortúnio,
Fieis viajores também passarão.
As coisas e o tempo seguirão,
Impassíveis que são.
O tempo há de continuar,
Sem que haja alguém para o amar ou odiar.

Não haverá homem nem relógio.
Muito menos esta imbricada relação.
Moderna religião.
Relicários diversos:
No pulso, no bolso, na torre...
Pretendem armazenar o que não se deixa domar.
Aprisionam, pois, o incapitável
Que, lá de dentro, dita aos venerandos homens lei inefável:
“Sê pontual” bom viajor.
Eles a acatam com temor e tremor.
Este sagrado profano que a todos governa.
Hereges ele condena.
Excomunhão eterna.
Anátema,
Aos impontuais.

Que resta desta religião?
Não há salvação.
Culto permanente.
Conteúdo imanente.
Eterno repente
A ressoar no íntimo de cada existente:
“A pontualidade é a redenção”.

Religião sem promessa de paraíso.
Que prêmio esperas ao ouvir soar derradeiro guizo?
No último respiro cessará os encantos do “Reino dos Tempos”
Que beleza, que prazer, se sente nesse trágico momento?
Quiçá haja oportunidade para contentamento ou descontentamento!
Não haverá mais atraso nem pontualidade
Nem os adornos por ela recebidos
Que ti restará de felicidade?

Não te permite usufruir das primícias do temporal sacrifício
Que tu mesmo oferece,
No seu constante suplício.
Saibam tenazes sacrificantes,
Sacrificadores,
Oferecedores de preciosos instantes:
Quem alimenta o Kronos.
Será por ele por inteiro engolido.
Se Cronometrados estamos,
Vivemos remidos,
Porém, por chama gélida somos lentamente consumidos.
A ladear este altar sacrifical não há velas,
Não há calor, fogo, emoção ou paixão.
Tudo se reduz ao cálculo da reta e impassível razão.
Pra quê realização e felicidade?
Importa encarnar impessoais entidades: eficácia e lucratividade.

Acordados e adormecidos.
Vitoriosos e vencidos.
Portentoso exército.
A marcha por povoados desertos.
Rumo a destino incerto.
Sob o ritmo contínuo do Tic-Tac.
Ao fundo canta o intrépido rouxinol:
“Vaidade das vaidades, tudo é fugaz debaixo do sol”.

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