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A humanidade do “homem”, propriedade que o distingue dos demais “seres
vivos”, parece se constituir a partir do processo de relação que esse ser vivo
específico, o “homem” (com toda sua constituição físico-química),
estabelece com o meio no qual ele se
situa (a objetividade). Dessa relação
origina-se aquilo que denominamos “subjetividade”
(não serão caracterizados os termos “humanidade” e “subjetividade” à medida que
não nos interessa apresentar os diversos modelos em que são expressos ao longo
da história da Civilização; na verdade, existem “humanidades” e
“subjetividades”. São expressos nas diversas formas de manifestação da Cultura).
Somente com o consequente aprofundamento dessa
relação, já estando a sua primitiva “subjetividade” em processo de
constituição, se gesta a sua humanidade.
Considerações
preliminares
O desenvolvimento
técnico-científico tem contribuído, significativamente, para o fortalecimento
da cosmovisão fisicalista como forma
do homem compreender a si mesmo e a realidade que o circunda (a própria noção
de “verdade” corrente atesta a proeminência desta cosmovisão: “verdade” é o que
pode ser metodologicamente verificado e atestado). A constituição deste regime de pensabilidade vem acompanhada
da tendência predominante de simplificar/reduzir a realidade, com toda a sua
multiplicidade de aspectos e facetas, à matéria
(ao que se deixa ser metodologicamente analisado).
Essa cosmovisão, negada por
muitas mentes reacionárias e/ou refratárias à cosmovisões imanentistas, tem se gestado desde uma longa data (vale
afirmar que se aperfeiçoou na Modernidade). O processo do conhecimento
apresentado pelo pietista filósofo alemão, Immanuel Kant, se dá por essa via
(se pode conhecer o que se deixa captar pelos sentidos, ou, o que os sentidos
captam; é essa a matéria com que o entendimento humano lida no processo
citado).
Com efeito, a transferência
desse regime de pensabilidade fisicalista
para a Antropologia não ocorre sem certo risco de se tornar demasiadamente
reducionista. O homem pode ser explicado
a partir daí, não sistematicamente compreendido
(é o que nos aponta a antropologia filosófica/integralizante de Lima Vaz). Uma
vez feita essa ressalva, temos que admitir que as contribuições advindas do
desenvolvimento da tradição fisicalista,
sobretudo considerando avanços da Neurociência
e da reflexão tecida a partir da Filosofia
da Mente, podem contribuir muito para que possamos entender um pouco mais sobre
a multiplicidade do fenômeno humano, (especialmente sobre a constituição da
chamada “humanidade do homem”). A aposta no diálogo com a tradição acima
mencionada se constitui como possibilidade para potencializar essa pretensão a
muito perseguida.
Prossigamos nossa reflexão! Uma
boa vereda para penetrarmos este complexo campo é a reflexão sobre a temática mente e cérebro (visando identificar, aí, algo que nos diferencia das
demais inteligências). Algumas indagações emergem: o que é da ordem do mental
pode ser compreendido somente enquanto oscilações, variações no circuito
neuronal? A mente humana pode ser
reduzida ao cérebro sem prejuízos
para uma compreensão antropológica integralizante? Fazendo um paralelo entre o
homem e uma complexa máquina de emular cálculos (a analogia entre homem e
máquina é corroborada pelo processo de instrumentalização
da razão, desde o qual a racionalidade humana é subordinada à técnica sendo reduzida à condição de um
eficaz instrumento para produzir bens) e tomando como problemática as
consequências desse paralelo, é possível indagar ainda: não seria o homem, com
todos os seus circuitos neuronais, algo mais do que uma máquina de emular
cálculos? Ou, até mesmo, não seria ele mais do que um amontoado de células
operando na direção de um telos ou
oscilando aleatória e niilisticamente? Finalmente, o que torna o homem
diferente de uma máquina qualquer, haja vista que, a princípio, são
Inteligências operando a partir de circuitos energizados (respectivamente, o neuronal
e o eletrônico)? Parece ser o fato de que, no caso humano, esta inteligência,
na forma de “subjetividade”, não atua pré-determinada por sequências
padronizada (a não ser que o seja pela onisciência divina ou por um artefato introduzido
no cérebro do indivíduo), mas se constitui a partir do amplo conjunto de relações que ele estabelece com o meio
no qual ele está situado.
“Escolhas”,
“subjetividade” e “objetividade”: a produção da humanidade do “homem”
A partir dessa constatação,
indagações existenciais podem ser feitas, em diálogo com essa conclusão advinda
de uma cosmovisão fisicalista, e,
finalmente, partindo destas indagações chegaremos a certas reflexões sobre o
entendimento da nossa “humanidade”. Partindo da tese de que o que difere os “homens”
das demais máquinas é a possibilidade dele si determinar, chegaremos à temática
da “escolha". Por mais que as demais máquinas também operem em direção a
uma finalidade, a um telos, para o
homem isso não fica muito claro. Pode ser o caso em que de fato essa finalidade
possa ser dada a princípio, como uma espécie de destino (e neste caso seríamos menos livres), mas pode ser também o
caso em que ele seja constituído a partir das “escolhas” feitas ao longo da
existência.
Considerando a tese acima
referida, (para não sermos demasiadamente ingênuos e fantasiosos ao relacionar “escolha”
e “liberdade”), temos que admitir que estas “escolhas” não se dão com a isenção
da interferência do meio externo, dos condicionamentos, da realidade objetiva. Com efeito, mais do que se determinar a partir
das suas “escolhas” o que diferencia o homem das demais máquinas é o fato de
que ele vive as consequências dessas escolhas e se humaniza a partir delas. Sendo correto este raciocínio, chegaremos
a conclusão de que a relação que o “homem”, a partir de sua subjetividade já em processo de
constituição, estabelece com esta realidade
é fundamental no seu processo de
humanização.
“Padrões
de humanidade”: uma criação importante para a civilização
Ao longo das diferentes eras,
diversas “formas culturais” foram produzidas à medida que distintos também
foram os modos como as relações entre subjetividade
e objetividade se sucederam (esta
última, seja ela material ou solidificada, como por exemplo uma ideologia
absolutizada). Diversos também são os “modos” como o homem se humaniza, a depender das variadas “objetividades” com as quais
se relaciona. As diferentes nuances desta relação permitiram, e permitem, à
civilização congregar diferentes Culturas (guerra, paz, cientificismo, humanismo,
capitalismo, socialismo, etc.) que,
por sua vez, propiciaram diversas posturas
de sociabilidade (solidariedade, cooperação, competitividade, egoísmo, etc).
Não é só isso: as diferentes “objetividades” com as quais o homem se
relacionou atuaram, em contrapartida, contribuindo para que ele se humanizasse de
diferentes “modos” (essas modalidades, em alguma medida, se aproximam ou se distam
dos “padrões de humanidade” vigente).
Às “formas culturais” de que
falamos antes se associam os “padrões de humanidade”. São constituídos ao longo da história da
civilização enquanto modelos performativos que exaltam os altos ideais a que
devem se destinar o processo de
humanização, indicando aos indivíduos de uma dada época que tipo de ações
devem realizar (se destinam a condicionar o comportamento humano). Em tais
modelos diversos ações são enaltecidas (como a bondade, a solidariedade, a
magnamidade, a justiça, a coragem, a temperança, a sobriedade, etc.), e outras são censuradas (a
maldade, o individualismo, o egoísmo, a injustiça, a covardia, a intemperança,
a desmedida, etc.). Estes modelos
variam conforme os valores proeminentes de determinada época. No entanto,
quando se fala da constituição da
humanidade do homem, tanto ações tidas como belas como as censuradas são
importantes para o seu desenvolvimento. A princípio todas corroboram para esse
processo constitutivo, somente depois são enquadradas/classificadas enquanto ações humanas (as que mais se aproximam
do ideal propagado) e desumanas (as
que mais se distam deste mesmo ideal). Novamente: a princípio todas são “humanas”
e contribuem para o processo de constituição da nossa “humanidade” (se
ainda assim persistir o desejo de avaliar a “humanidade” do indivíduo a partir
de seus comportamentos externalizados, correto seria classifica-los enquanto
caracterizados pela “humanização forte” e “humanização fraca”: pela primeira
compreende-se aquelas ações que estão de acordo com os mais altos “padrões de
humanidade”, pela segunda o contrário).
. O que está em jogo aqui é a relação da subjetividade, em processo de produção, com a realidade objetiva em vista do produto que se gera em tal relação: a humanidade.
. O que está em jogo aqui é a relação da subjetividade, em processo de produção, com a realidade objetiva em vista do produto que se gera em tal relação: a humanidade.
Fica para a civilização o dever
de tecer uma autocrítica constante sobre o “padrão de humanização” que os
grupos dominantes (hegemônicos) promovem direta (por exemplo, através das ideologias
propostas e dos horizontes de vida sugerido aos indivíduos) ou indiretamente (por
exemplo, através da influência que as tecnologias produzidas exercem sobre o
tipo de relação que os indivíduos estabelecem com seus pares e/ou com o meio
onde estão situados, ou ainda, através do agigantamento das mazelas sociais e
ulteriores interferências sobre quem nela vive ou com ela se confronta). Todos
são responsáveis pelo tipo de humanidade
que se produz em determinada época (uma ressalva deve ser feita: todos os
indivíduos são corresponsáveis, mas aqueles que exercem o poder ocupando os
espaços de decisão, pelo papel social que encarnam, são os que mais devem se
empenhar nessa responsabilidade).
A Cultura, sendo produto da
civilização, e sem deixar de exercer influência sobre os indivíduos particulares que compõe
essa mesma civilização, é fundamental, em certo sentido é determinante, na
constituição de nossa “humanidade”. Vejamos um pouco mais sobre a influência
proeminente da Cultura: uma pesquisa publicada em 2012, pela revista “Nature”, aponta
que, do ponto de vista da genética, o homo
sapiens mais se aproxima dos macacos
Bonobos (compartilhamos 98,7% dos genes com eles) do que dos Chipanzés. Os primeiros são conhecidos
por serem, via de regra, pacíficos e por estabelecerem relações eminentemente
amorosas; os últimos, por serem guerreiros e agressivos. Partindo das premissas
dessa teoria de cunho evolocionista uma indagação surge: porque então a guerra
se faz mais presente na nossa civilização do que a paz? Uma possível resposta
para essa aparente contradição é que, pela Cultura,
superamos a propensão genética (essa conclusão pode dialogar ainda com a teoria
criacionista: pela Cultura superamos a propensão à bondade). No caso da nossa
cultura ocidental, a moral da
competitividade, a ideologia da supremacia do conquistador, a figura dos
super-heróis dominadores, à medida que são cristalizadas, naturalizadas e
difundidas, no processo de
educação/formação do homem, se tornam como que objetividades com a qual o indivíduo se relaciona ao se humanizar. Como resultado, superamos a
mencionada propensão genética, e nos tornamos mais próximos ao ethos do Chipanzé (ao qual estamos menos propensos do ponto de vista da
genética).
Nossa época se torna nociva
para nós mesmos à medida que a invasão das ferramentas técnico-científicas, sobretudo
no “mundo da vida”, “do trabalho” e do entretenimento, tem afetado a nossa subjetividade de modo a nos tornar em
muito semelhante às máquinas. Tem-se procedido com o processo de maquinificação do homem, do atrofiamento
das múltiplas possibilidades de nossa subjetividade, em vista da eficácia na produção
de bens de valor comercial (Theodor Adorno e Max Horkheimer tratam disso, na
obra Dialética do Esclarecimento).
Cria-se uma tensão entre o tipo de homem que se tem produzido e a demanda posta
por nosso padrão de humanidade vigente. Gesta-se humanidades “coisificadas”,
pragmáticas, utilitaristas, matematizantes/calculistas, cada vez mais
anestesiadas no trato com os próprios sentimentos e emoções, apáticas no
relacionamento interpessoal, pouco aptas a encarnarem a sensibilidade no
gerenciamento dos afetos...
Breve
consideração sobre esse entendimento de “humanidade”
A principal consequência dessa
concepção de “humanidade” é a superação da oposição entre interioridade-exterioridade na tentativa de entendimento do “homem”.
Esta oposição propicia que muitos agentes da arena religiosa, civil e/ou
militar parcializem suas reflexões, optando por um ou por outro desses
aspectos, em seus discursos e iniciativas, enquanto atuam em suas respectivas
instituições. O foco na relação
objetividade-subjetividade propiciará, sobretudo a tais agentes, uma
cosmovisão mais ampliada os potencializando no trato que estabelecem com o
principal problema com o qual lidam, qual seja, a busca da constituição de um “melhorado
mundo” (exterioridade) e de um“melhorado homem” (interioridade). Diante do
esquecimento do imbricamento desta relação, na busca por tratar desse objetivo,
seja pela primazia da exterioridade (por
exemplo, da aposta apenas no desenvolvimento de tecnologias sofisticadas, de criação
de espaços sociais/físicos aprimorados para recuperação de “indivíduos insanos”...)
seja da interioridade (por exemplo, da defesa de soluções psicologizantes e/ou
outras teorias desvinculadas da realidade social, histórica, econômica e
cultural), cabe a pergunta: seria ele realizável?

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