sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Inhotim: ‘A Maravilhosa Fábrica de Aisthésis’

Figura 1: John Ahearn e Rigoberto Torres - Abre a Porta, tinta automotiva sobre fibra de vidro, 530 x 1500 X 20 cm, 2006. Foto: Eduardo Eckenfels. Disponível em: <http://www.inhotim.org.br/inhotim/arte-contemporanea/obras/abre-a-porta/>
Não venho por hora tratar do que senti diante de obras particulares visitando Inhotim enquanto ávido “consumidor” de “experiências estéticas”. Quero apenas pontuar duas questões: 1) o espaço reduzido disponibilizado para o trato de questões estéticas próprias à cidade de Brumadinho no Instituto Inhotim (nesta cidade fica situado o Instituto) e 2) problematizar a eficácia da experiência estética obtida nos limites de um recanto espaço-temporal definido para este fim na medida em que se considera que o contexto maior em que se dá o processo de educação/formação do homem lhe danifica o próprio aparato perceptivo do qual ele se serve para ter esta experiência.

Centenas de trabalhadores - proveniente de Brumadinho ou não -, ao venderem sua força de trabalho e graças ao emprego de seus impulsos vitais, tornam operante aquela ‘Fantástica fábrica de Aisthésis’. Com efeito, eles, juntamente com os habitantes de Brumadinho (MG), não são tomados propriamente como objeto de que se ocupa a produção artística ali alocada. Existem no universo inhotiano enquanto funcionários e/ou instrumentos que fazem girar a roda da arte e a roda da economia local. A exceção quanto a isso fica por conta da obra Abre a porta (2006) de John Ahearn e Rigoberto Torres (ambos residentes nos EUA). No geral quanta vontade submetida ao dever; quanta vida não-vivida; quanta rotina coisificante; quanta angústia na vida tecnocrática; quantas vivências quotidianas; quão grande riqueza cultural; quão grande melancolia no medo da violência; quantas doenças impregnadas no tecido sócio-histórico brumadense; quão grande afetação da cultural local pelas matrizes culturais “advindas de fora”; quanta história não-registrada pela ciência histórica; quanta magia existencial não-retratada; quanto sacrifício existencial despercebido; quantas metamorfoses não-percepcionadas; quanta lucidez e quanta loucura escorrendo pelos ralos da vida... quanto isso e quanto aquilo pertencente ao quotidiano daquela cidade que não é matizado no universo inhotiano. O universo de Inhotim e de Brumadinho se encontram quando o segundo se assemelha ao primeiro a partir de aspectos que são comuns à condição de humanidade dos concidadãos destes dois universos; mas no geral, salvo raras exceções (como a acima mencionada), o segundo não é tomado como problema tratável pelo primeiro.

Uma das marcas do processo civilizatório, progressiva e regressivamente constituído pelo homem ao longo da história, é a instituição de lugares (a demarcação de porções de espaço-tempo) para a vivência das experiências de que ele é capaz e que são determinantes na manutenção das condições desde as quais se efetiva constantemente este processo. Disso dão testemunho os jardins botânicos e os zoológicos criados para o contato com a natureza; os templos para o encontro com a transcendência; e os “museus da arte” dedicados à vivência de experiências estéticas. Considerando o último caso, e a arte contemporânea em geral, porquanto acentuam o papel desempenhado pela subjetividade individual nestas experiências, cabe a seguinte pergunta: em que medida tais experiências não são coisificadas? (isto porquanto a própria estrutura perceptiva a partir da qual elas se realizam estão danificadas pelo tipo processo de educação/formação experimentado pelo indivíduo no mundo da vida e, sobretudo, no mundo do trabalho, numa época em que, sobretudo devido ao modus operandi característico do modelo econômico predominante, o homem inteiro é instrumentalizado - em vista da produção de um estado de coisas que tornem possível a manutenção do funcionamento ininterrupto das engrenagens que tornam operante o sistema capitalista).

  


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