quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Mundos possíveis: estratégia de estranhamento e reconfiguração do “imediatamente dado”

Para onde estamos indo? 
Pensar na viabilidade da co-existência de mundos possíveis, por inspiração da proposta apresentada pelo realismo modal de David Lewis (1941-2001), oportuniza que seja descortinadas perspectivas desde as quais se vislumbre que a realidade histórica, na qual o existente se insere, é, no final das contas, a realidade do devir constante, isto é, sempre não-determinada, fluída e disforme por princípio. Oportuniza ainda que seja pensadas estratégias de estranhamento à realidade imediatamente dada, (a esta realidade sempre naturalizada historicamente de modo a tornar-se como que a única possível fora da qual tudo é um disparate, devaneio, utopia, projeto não-realizável). Oportuniza, pois, que se proponha o ato de desencantar os existentes particulares daquele encanto disseminado por aqueles que se beneficiam do estado de coisas vigente por extrair dele as condições de possibilidade para a perpetuação da sobrevivência de si às custas de outrem. Este desencantamento pressupõe que, à maneira de verdadeiras marteladas desencadeadas sobre ruínas de uma antiga construção enrijecida e petrificada com o tempo, se considere que uma coisa é o que “é” pelo que assim se tornou a partir das escolhas particulares e/ou dos projetos coletivos implantados de modo que, desta forma, deixou de ser opção dentre a multiplicidade de opções para se tornar o “único mundo possível” fora do qual nada mais pode ser. Este tipo de consideração torna-se como que propedêutica para a práxis transformadora em vista da instauração de outros mundos possíveis.

Esta proposta assusta àqueles que, pelo processo de educação/formação recebido diariamente no mundo da vida, tornam-se cidadãos encantados ao serem educados/formados unicamente para se adequarem, se ajustarem, se adaptarem irrefletida e cegamente, a este mundo possível vigente (este momento de contato com a realidade imediatamente dada, quando feito de forma crítica e refletida, é importante no processo de educação/formação, mas urge ser seguido por outro de estranhamento, inadequação e resistência a determinados aspectos desta mesma realidade sob pena de, em caso contrário, tornar-se meio de adestramento para formar indivíduos bem-acomodados ao imediatamente dado que, assim, se torna imutável. Esta noção do processo de educação/formação em dois tempos encontra-se presente no pensamento educacional de Theodor W. Adorno (1903-1969)). Os assustaria menos se tomassem consciência de quanta injustiça é praticada para que haja “justiça”; de quanta opressão existe para que haja “paz”; de quanta vida é não-vivida por alguns para que outros vivam-na plenamente; de quanta desumanidade que há naturalizada no processo de humanização do homem; do quanto que matam Deus até mesmo quando se propõe à louvá-lo nas religiões (disso a intolerância religiosa dá testemunho); do quanto se enforma a vida na riqueza de seu vir-a-ser nos padrões emulados por aqueles que detém o poderio financeiro (para que seja constituído um estado de coisas a partir do qual estes se mantenham na posição de comando no jogo social); enfim, se tomassem consciência da precariedade e da involução cristalizadas na inadmissão da existência de mundos possíveis para nós humanos que, conforme Carl Sagam (1934-1996), vivemos neste “pálido ponto azul”.

Estamos mesmo no melhor dos mundos possíveis?

Seria o mundo do ... nazi-fascismo, do stalinismo, de tragédias sócio-ambientais humanamente causadas como a ocorrida em Bento Rodrigues (Mariana – MG) no ano de 2015, da desigualdade social, da violência contra as minorias, da fome, da exploração da vida alheia em detrimento da acumulação de capital, da corrupção naturalizada na vida política (fenômeno entendido a partir da confusão entre as esferas do público e do privado, ou melhor, da apropriação do público em benefício do privado), etc. ... o melhor dos mundos possíveis?


Novamente: estamos mesmo no melhor dos mundos possíveis?
Economia do Espaço-Tempo. Estamos sendo bons economistas?


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