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| Para onde estamos indo? |
Pensar na viabilidade
da co-existência de mundos possíveis, por inspiração da proposta apresentada
pelo realismo modal de David Lewis (1941-2001), oportuniza que seja descortinadas
perspectivas desde as quais se vislumbre que a realidade histórica, na qual o
existente se insere, é, no final das contas, a realidade do devir constante, isto é, sempre
não-determinada, fluída e disforme por princípio. Oportuniza ainda que seja
pensadas estratégias de estranhamento à realidade imediatamente dada, (a esta realidade sempre naturalizada
historicamente de modo a tornar-se como que a única possível fora da qual tudo
é um disparate, devaneio, utopia, projeto não-realizável). Oportuniza, pois, que
se proponha o ato de desencantar os existentes particulares daquele encanto
disseminado por aqueles que se beneficiam do estado de coisas vigente por
extrair dele as condições de possibilidade para a perpetuação da sobrevivência
de si às custas de outrem. Este desencantamento pressupõe que, à maneira de
verdadeiras marteladas desencadeadas sobre ruínas de uma antiga construção
enrijecida e petrificada com o tempo, se considere que uma coisa é o que “é”
pelo que assim se tornou a partir das escolhas particulares e/ou dos projetos
coletivos implantados de modo que, desta forma, deixou de ser opção dentre a
multiplicidade de opções para se tornar o “único mundo possível” fora do qual
nada mais pode ser. Este tipo de consideração torna-se como que propedêutica
para a práxis transformadora em vista
da instauração de outros mundos possíveis.
Esta proposta assusta
àqueles que, pelo processo de educação/formação recebido diariamente no mundo
da vida, tornam-se cidadãos encantados ao serem educados/formados unicamente
para se adequarem, se ajustarem, se adaptarem irrefletida e cegamente, a este
mundo possível vigente (este momento de contato com a realidade imediatamente dada, quando feito de
forma crítica e refletida, é importante no processo de educação/formação, mas urge
ser seguido por outro de estranhamento, inadequação e resistência a
determinados aspectos desta mesma realidade sob pena de, em caso contrário, tornar-se
meio de adestramento para formar indivíduos bem-acomodados ao imediatamente dado que, assim, se torna
imutável. Esta noção do processo de educação/formação em dois tempos
encontra-se presente no pensamento educacional de Theodor W. Adorno (1903-1969)). Os
assustaria menos se tomassem consciência de quanta injustiça é praticada para
que haja “justiça”; de quanta opressão existe para que haja “paz”; de quanta
vida é não-vivida por alguns para que outros vivam-na plenamente; de quanta desumanidade
que há naturalizada no processo de humanização do homem; do quanto que matam
Deus até mesmo quando se propõe à louvá-lo nas religiões (disso a intolerância
religiosa dá testemunho); do quanto se enforma a vida na riqueza de seu vir-a-ser
nos padrões emulados por aqueles que detém o poderio financeiro (para que seja
constituído um estado de coisas a partir do qual estes se mantenham na posição
de comando no jogo social); enfim, se tomassem consciência da precariedade e da
involução cristalizadas na inadmissão da existência de mundos possíveis para
nós humanos que, conforme Carl Sagam (1934-1996), vivemos neste “pálido ponto
azul”.
Estamos mesmo no melhor
dos mundos possíveis?
Seria o mundo do ... nazi-fascismo,
do stalinismo, de tragédias sócio-ambientais humanamente causadas como a
ocorrida em Bento Rodrigues (Mariana – MG) no ano de 2015, da desigualdade social,
da violência contra as minorias, da fome, da exploração da vida alheia em
detrimento da acumulação de capital, da corrupção naturalizada na vida política
(fenômeno entendido a partir da confusão entre as esferas do público e do
privado, ou melhor, da apropriação do público em benefício do privado), etc. ... o melhor dos mundos possíveis?
Novamente: estamos
mesmo no melhor dos mundos possíveis?
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